Por Luiz Renato de Souza Pinto*

Desde o dia quatro de maio está acontecendo em nossa cidade a vigésima edição do festival de teatro Palco Giratório, iniciativa do Serviço Social do Comércio (SESC) e que brinda Cuiabá com alguns dos melhores espetáculos em cartaz pelo país, facilitando o intercâmbio com grupos locais, uma vez que além das peças acontecem oficinas, bate-papos com artistas após as apresentações, como também trocas de experiências com os encontros denominados Pensamento Giratório.

maieutica-3A programação deste ano conta com um aumento da programação local, talvez até pela crise econômica, fato que diminui o número de visitantes e por outro lado amplia a participação de grupos da própria cidade. Há que se destacar também o grande número de apresentações sob o rótulo de performance, num reconhecimento a essa linguagem como arte cênica prestigiada, após experimentar o limbo durante algum tempo.

Escrevo este texto na manhã nublada de quarta-feira, 17 de maio, após termos recebido o número de doze apresentações, entre performances, peças propriamente ditas e a abertura musical com DJs, na festa que abrilhantou o Arsenal para dar o ponto de partida. Já resenhei para o blogue Parágrafo Cerrado cinco dos seis espetáculos a que assisti e neste espaço gostaria de me reportar ao sexto, Os Mequetrefes, montagem de número cinquenta e nove de um repertório de sessenta da (quase) jurássica companhia Os Parlapatões; sim, digo isso pela dificuldade de longevidade de grupos que vivem sem subvenção, à mercê de suas próprias pernas e da instável política de incentivos para comunidades artísticas de qualquer linguagem.

foto-1-os-mequetefreEm seus vinte e cinco anos de história, o grupo permaneceu unido, ampliando seu universo de pesquisa e traduzindo em experimentos de linguagem sua visão de mundo, de coletivo, de mudança e transformação. A representação do palhaço como elemento agregador do circo e do teatro faz de suas montagens um trabalho em que o divertimento de quem faz e cria alia-se ao da plateia numa comunhão fantástica em que tudo é possível e a emoção se traduz em encantamento divinatório em que a psicologia e todas as modalidades de análise comportamental figuram (seguramente) como coadjuvantes.

A arte tem o dom de produzir um brilho onde antes tudo era ofuscado por um ego rompido, por personalidades interditas e outros bloqueios de ordem psicossomática em geral. Palhaço nunca foi sinônimo de trapalhão, bem lembrado por um dos líderes do grupo durante o bate papo após a apresentação. Revelar os bastidores da montagem, o processo de criação do espetáculo dentre outras curiosidades aumenta a magia contida no palco italiano, ou em qualquer outro picadeiro, ao invés de mitificar a obra artística como genial ou fora do alcance da maioria dos mortais.

at-sp-ridiculos-ainda-sempre-001Assistir a um espetáculo como esse, participar de um papo aberto sobre as péssimas condições em que se encontra o apoio à arte nesta sociedade hipócrita e individualista é algo que não tem preço. Palhaço é aquele governante corrupto que não respeita seus comandados; palhaço é o aprendiz de cidadão que desrespeita a diversidade de pensamento, de prática social, de opção profissional e ou orientação sexual. Palhaço é quem aplaude a estigmatização do negro como inferior, do índio como sub-raça, das mulheres, como seres inferiores.

Observo uma incidência acima da média dos espetáculos para maiores de dezoito anos na programação de 2017, o que não acho ruim, até mesmo porque as crianças estão sendo estimuladas a passar mais horas em cima das telas de todos os tamanhos. Porque seus pais, na ânsia de melhorarem de vida a médio e longo prazo sacrificam-se com menos divertimento para ficarem na segurança de seus lares, presos aos folhetins da Netflix, ao invés de áreas de convivência social onde as trocas simbólicas de que falava Boiurdieu se dão de maneira mais cooperativa.

Sem pretensão alguma de me tornar um ativista da moral, trago essas reflexões apenas para apimentar um pouco a dinâmica da palavra expressa, impressa virtual ou fisicamente em algum suporte discursivo. Recentemente fui chamado à realidade para ver meus dois filhos (um casal) às portas de uma adolescência que transforma os seres humanos em algo diferente do que foram até então. E vejo como essa cibernética cultura tem atingido a sua formação. Como professor do ensino médio e, também, usuário das novas tecnologias vejo com preocupação essa urgência toda em se acessar as mensagens em tempo real, em atribuir protagonismo aos pequenos aparelhos sem os quais a humanidade parece perdida em eternas divagações.

O futuro já chegou faz um tempo. Talvez eu não tivesse percebido antes. Talvez estivesse enjaulado em meus livros, companheiros eternos de minha “solidão independente”. Seja como for, vejo amigos com seus leitores de e-book e milhares de livros digitalizados enquanto eu ainda me relaciono com o papel passado, com as letras escritas em volumes que se espalham pela minha casa. Eu, tão habituado ao barulho ensurdecedor da página virada; até isso já reproduzido pela tecnologia, e refém convicto do cheiro de cada obra lida, ou aquela em vias de ser manuseada pelos dedos ágeis que saboreiam cada parágrafo cerrado diante de meus olhos.

O futuro já chegou, é fato. Mas ainda gosto do meu passado nem tão remoto e do presente que me traz a oportunidade, por exemplo, de vir até vocês e demonstrar minha insatisfação com uma vida tão finita na qual não há tempo para se fazer tudo o que a gente se propõe. Carpe diem!

*Luiz Renato de Souza Pinto é ator performático, poeta, escritor e professor. 
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Ao completar vinte anos da publicação de meu primeiro romance, fecho a trilogia prometida com este volume. Penso que esse tempo foi uma graduação na arte de escrever narrativas mais espaçadas, a que se atribui o nome de romance. Matrinchã do Teles Pires (1998), Flor do Ingá (2014) e Chibiu (2018) fecham esse compromisso. Está em meus planos a escritura de um livro de ensaios em que me debruço sobre a obra de Ana Miranda, de Letícia Wierchowski e Tabajara Ruas; o foco neste trabalho é a produção literária e suas relações com a historiografia oficial. Isso vai levar algum tempo, ou seja, no mínimo uns três ou quatro anos. Vamos fechar então com 2022, antes disso seria improvável. Acabo de lançar Gênero, Número, Graal (poemas), contemplado no II Prêmio Mato Grosso de Literatura.

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