Existem momentos que o jornalismo propicia, que são uma troca, um encontro com aquele que você conversa. Como definiu Eliane Brum, é “despir de si para ir de encontro ao outro”. E é assim que estas experiências possuem o poder de transformar quem está disposto a ouvir, a sentir a história do outro. Para mim, um destes momentos, foi a entrevista com o escritor e jornalista José Castello.

Quando soube que iria perder o curso sobre Clarice Lispector – Literatura e Existência, no Sesc Arsenal fiquei revoltada comigo mesma por não me programar para participar. Mas, era preciso aproveitar a sua presença em Cuiabá para gravar uma entrevista para a TV de Quintal. Então, numa quinta-feira, enquanto o Bulixo fervia e o Palco Giratório crescia no jardim, a oficina das letras de Clarice acontecia em uma das salas do Sesc.

jcastelloEntrei e procurei por José Castello. Era o intervalo do curso. Cheguei na sala e já o metralhei com informações, falei sobre o site, que era jornalista e escritora, que perdi o curso mas queria muito mesmo entrevistar ele, e seria a maior honra, e … e … e muito calmo, José Castello assentiu em meio a tantas frases que despejei e com um aperto de mão selamos nosso próximo encontro que seria na manhã de sexta-feira no Hotel Paiaguás na Avenida Mato Grosso às 11h.

Chegamos com cerca de 10 minutos de atraso. José Castello estava no saguão do hotel nos esperando. Entregamos alguns livros de presente, entre eles, Deus de Caim de Ricardo Guilherme Dicke. Arrumamos a câmera no tripé na área externa, na piscina, e nos sentamos em uma mesa para conversar.

José Castello é um homem intenso. Despertou muitos sentimentos em mim e um dever de responsabilidade, de trabalhar na militância da arte, como uma missão que é intrínseca. Reconhecido por romper com as amarras dos gêneros literários, José Castello se preocupa com a comercialização da literatura e a massificação da cultura de consumo.

“A questão dos gêneros é muito rígida, hoje basicamente querem escrever romance no modelo americano e inglês. Todo mundo copia os grandes, quer escrever poesia a moda de fulano, a maneira de beltrano, conto com fórmulas. O mundo mais dominado pelas fórmulas, pelas grifes. Tudo isso no Brasil tem relação com essa entrada cada vez mais massacrante da cultura americana, a cultura de consumo, baseada em grifes. E essa ideia da grife é a ideia da marca nítida, a definição clara do que uma coisa é ou não é. E na verdade, isso é falso, porque na literatura os grandes escritores como Clarice, trabalham na fronteira dos gêneros. Eles não são rígidos. A vida ela é fluída, na literatura e arte em geral, o que vale é a afirmação do singular, do um, do particular, e essa afirmação do particular é sempre própria e diferente de cada um”.

jose castelo

E eu volto a encher meus olhos com significados novos a cada leitura que faço das palavras de José Castello. Me perco. Não sei para onde ir. Ele é uma metralhadora e me lança em uma queda, não consigo destrinchar todos estes pensamentos em algo simples, coeso. Fico em meio ao caos. Mas já decidi que aqui vou me ater à literatura. O outro texto é mais pesado, é político.

“Não tem nada mais contrário a ideia que move a arte e a literatura do que essa ideia de escrever para agradar os outros. O escritor escreve para agradar a si, para encontrar sua voz, seu próprio caminho, particular”.

CastellonoPaiolCrdtMatheusDias0076José Castello discorre sobre os grandes da literatura brasileira. “A poesia brasileira do século XX, temos basicamente sete grandes poetas, do mesmo grupo, Vinícius, Drummond, Cabral, Bandeira, Jorge Lima, Murilo Mendes e Cecília Meireles, cada um deles é um mundo inconfundível, um caminho próprio, uma maneira de viver e de sentir, cada um deles, não tem certo ou errado, seguiu seu caminho sem essa preocupação. Essa ideia de moda é muito perigosa e está muito dominante na sociedade e também na literatura. Na poesia não tem isso de regra, pelo contrário, você buscar essa regra é se matar um pouco, se anular um pouco. A arte é a afirmação de existir.”

Mas, ele vai além e me desperta de um entorpecimento, faz acordar os meus sentidos para a necessidade de resistir. De acreditar cada vez mais no que me proponho a fazer, a lutar e  para tentar retribuir aquilo que recebo.

“A arte tem que caminhar na contramão, andar na contramão de tudo, firmar caminho contrário, fazer seu próprio caminho, não se deixar arrebanhar, o rebanho, o gado, não, é preciso seguir o seu caminho”.

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O escritor acredita naqueles que vivenciam a arte, a literatura, a poesia, e inserem a sua visão particular de mundo, seus sentimentos, suas impressões. “Para cada escritor um conto é uma coisa diferente, escrever romance é um significado diferente, dos grandes escritores e não os que copiam esta tradição anglo-saxônica. Essa padronização da literatura é muito perigosa e perniciosa, chega a ser doentia, e ela é mortal para a literatura. E infelizmente a tendência, embora a gente resista, muitos escritores tentam resistir, a tendência é se espalhar, a tendência da uniformização está no mundo”.

Radicalmente contra a ideia de perfeição e de textos bem acabados, o que percebo e sinto de José Castello é que ele é um homem de entranhas, movido por dentro, pela ânsia de vida, de conhecimento, de arte. E é esta ideia que mais combate em sua oficina sobre Clarice Lispector, que tem como base sua literatura e vida em mais de 400 crônicas da escritora.

Clarice Lispector escritora
Clarice

“Todos os artistas em geral tem isso, e no caso da Clarice é radical, essa relação literatura e existência é completamente radical, a literatura dela não é confessional, nas crônicas tem muita invenção e ficção mas o que passa de vida e existência é sua visão do mundo, a sensibilidade a flor da pele, muito especial, fica nítida naqueles textos. E é justamente esse jeito ‘torto’, considerado ‘errado’ como Clarice mesma dizia, que a faz ter seu estilo próprio, de través, de viés.”

E a pergunta final está sempre presente em nossas entrevistas. Porque viver e resistir pela arte, porque fazer arte?

“Acho que a gente escreve, faz arte, para firmar a maneira singular de ver o mundo, de sentir o mundo, de viver e estar no mundo. A gente escreve, faz arte, para ser. A arte é uma espécie de máquina de ser. Ela te ajuda a ser uma figura singular, a você ser quem é, essa procura de si mesmo, da própria voz, do próprio caminho, próprios erros, defeitos, imperfeições, tudo isso entra na arte, nada é negativo”.

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Marianna Marimon, 30, escritora antes de ser jornalista, arrisco palavras, poemas, sentidos, busco histórias que não me pertencem para escrever aquilo que me toca, sem acreditar em deuses, persigo a utopia de amar acima de todas as dores. Formada em jornalismo (UFMT) e pós-graduação em Mídia, Informação e Cultura (USP).

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