acordar as 6h da manha
tomar cafe
ler jornal
escovar os dentes
sair para trabalhar
mas
algo na rotina mudou
ela nao está mais la
uma semana antes
havia me pedido “coisas de menina”
nos ultimos dias pensava no batom vermelho, quase marrom, que levava na bolsa
pensava nela e imediatamente pensava no batom quase nunca usado
uma semana antes ela havia me dito que a policia levara tudo: A bolsa, o batom, o cobertor, a lona que fazia as vezes de teto pra dormir no chao duro
uma semana antes ela ajudava um cego a atravessar a rua
uma semana antes
agora ela nao está mais lá
nao sei se foi o frio
ou se a levaram junto com a casinha que insistia em construir toda vez que a arrancavam
em frente à camara municipal
todos os dias ela estava lá
ate nao estar mais
uma semana antes
eu a deixava com um batom pensando que no outro dia perguntaria seu nome
uma semana antes
No dia que ela nao estava mais lá
falamos sobre brecht, adorno, sartre, primo levy
sobre tempos sombrios, desumanização, invisibilidade
e eu nao perguntei seu nome

será que amanhã ela vai estar?

Compartilhe!
Marianna Marimon, 30, escritora antes de ser jornalista, arrisco palavras, poemas, sentidos, busco histórias que não me pertencem para escrever aquilo que me toca, sem acreditar em deuses, persigo a utopia de amar acima de todas as dores. Formada em jornalismo (UFMT) e pós-graduação em Mídia, Informação e Cultura (USP).

Comentário

Deixe um comentário

Please enter your comment!
Please enter your name here