Dou-lhe uma:
Cristiano Diniz escreve que Mariana Paiva promove uma colisão com Hilda; seria um desencontro com a palavra, essa assertiva? Depois de um prólogo, o livro é dividido em duas partes: Tua aventura de ser e O Poço de Dentro. Cada uma das partes com uma bola preta centralizada que poderia ser um espelho, um relógio, um prato, mapa mundi, o próprio óvulo de onde partiriam reproduções infinitas pela palavra não dita; ou mal-dita. Vou pescando algumas delas para me distrair nesta segunda de carnaval. “Penso que ali poderia ser um bom cenário de alguma montagem de Grandes esperanças, de Charles Dickens. Ali Pip passearia sem sentir o tempo passar” (PAIVA, 2018, p. 19).
A soteropolitana campineira insiste no mergulho, já que objetiva algo além da escritura da palavra, “quero saber tudo o que foi carne” (idem, p. 26). Macunaíma, adaptação cinematográfica de Joaquim Pedro de Andrade do clássico modernista, de maneira emblemática traz na cena do herói com o Curupira a máxima antropofágica: “carne da minha carne”; não sei bem porque, mas me lembrei disso agora. O Poço de Dentro invade a liberdade do leitor e dialoga com inusitadas imagens corrompidas pela realidade circundante deste mundo pós-moderno. “A moça do pôster acarinhando um unicórnio. (…) Um quadro também pode ser um espelho então?” (idem, p.37).
Vislumbro Salvador Dali e Pablo Picasso respondendo a altura esse questionamento. Relógios derretendo entre diversificados prismas para essa questão. “Palavras podem muito pouco às vezes” (idem, p 40).
Dou-lhe duas:
Da cratera profunda, do grotão vernáculo de onde salta o verbo de uma quarta camada surge Mariana Teixeira, tal qual fênix neolatina que, do vulcão sintático que percorre as grutas, traz a pá que lavra e de onde escorre a lava por entre os seixos que deixam rastros que a veia cala e floresce aorta. De cara lavada a atriz some do anonimato (por debaixo dos panos) – da posse tática; julgamento – nos quais o sonho se esfumaça. Confronto, partida, linguagem. A poesia aqui jaz e sela o voo do pássaro que rompe a cela da garganta e avança para além da gaiola que habita a pele.
Os cortes no corpo – contra/corrente – escorrem pela epiderme do vocábulo. Já dizia Ana C. “É sempre mais difícil ancorar um navio no espaço”. Dentro – ressurreição, destroços, escombros. Frestas, fendas, vãos. A poesia leonina ruge, dente de leão. Indícios, não códices, index de balas perdidas. O inconsciente – peão esquecido – tem sangue nos olhos e a atriz, fora dos palcos, no xadrez, traz o estado da palavra bruta no formato de coisa: xeque!
Dou-lhe três:
De Mariana Basílio vem o “Tríptico Vital”: da existência; da experiência; da extensão. Sinto muito de T.S. Eliot nesse livro, algo que me soa épico. Mas há a presença de Bandeira, de Guimarães Rosa, de Drummond e muitos outros. Há o recorte temporal; mas há também outras cesuras estéticas, éticas, alteridade. Não sei se o céu é o limite, pois “O teto é um seco oceano” (BASÍLIO, 2018, p. 70).
Há também a transcendência que lembra Anjos, o Augusto: “frágil biologia dos escombros- / Psicologia rompante, em / Retiros e posologias -/” (idem, p. 69). Um desejo pleno de sabedoria tece a costura indelével dos vocábulos. A erudição paira, transcende o código linguístico. O universo da tradução soma ao idioma pátrio o conjunto de significados.
Quando sabemos bem alguma coisa, não nos damos conta do nível de abstração com que lidamos. E esquecemos que outras pessoas, com experiências diferentes, não passaram pelas nossas histórias idiossincráticas de abstratização, como diria Pinker.
Vendido ao cavalheiro!
REFERÊNCIAS
BASÍLIO, Mariana. Tríptico Vital. São Paulo: Patuá,
2018.
PAIVA, Mariana. Vermelho-vida. São Paulo: Patuá, 2018.
TEIXEIRA, Mariana. Quarta camada de pele. São Paulo: Patuá, 2019.
Steven Pinker. Guia de escrita. São Paulo: Contexto, 2018.





















