Por Túlio Paniago*

Soltas aleatórias palavras
Desconexos pensamentos amontoados
Sucessivas frases incoerentes
Vaga construção simplória
Ingênuo eu-lírico ensimesmado
Sentença da ordem a inverter
Pobre linguagem de figuras presunçosas
Tentativa frustrada de criação de uma lógica
Abstrata
Exemplificações do cotidiano corriqueiro e trivial
Aroma de café recém-passado e tragada no cigarro
Referência a algum autor relevante
Seguido de uma rima óbvia ululante
Caos urbano trânsito fumaça periferia
Tradição família propriedade
Dedo no cu religião política gritaria e futebol
Tudo absolutamente sem qualquer nexo ou
Pontuação
(E não é questão de estilo)
Uma consideração entre parênteses antecede
Sentimentalismo farmacêutico
Manipulação e homeopatia
Doses de erotismo e pretensa subversão
Vulva falo clitóris orgasmo e pelos encravados
Apropriação de termos contemporâneos desconhecidos pelo autor
A liquidez da modernidade
Palavras proparoxítonas soam bem e independem de coerência ou coesão
Trágico estômago trôpego
Satânico esotérico cínico
Mínimo ínfimo átomo
Lépido atônito flácido
Áspero crônico fúnebre
De repente um verso livre se empolga e segue indefinidamente amontoando palavras como fosse emendar uma prosa desconexa mas o descarrilamento é interrompido por alguma palavra
Isolada
Este sem dúvida é o principal artifício
Para que eu e você possamos dizer que somos
Poetas
Basta dizer qualquer coisa idiota
E separar a sentença assim do
Nada
Não contribui com a estética
Tampouco acrescenta algo ao conteúdo
Também dispensa explicações ou uma suposta sugestão
De outras interpretações possíveis
Apenas um ato aleatório de cortar
Versos e isolar
Palavras
Eis a poesia que nada
Diz

*Túlio Paniago Vilela é jornalista, escritor, da cidade de Mineiros, e vive em 
Cuiabá desde 2010.

Comentário

  1. Adorei. Muito bom. Seria legal também se fosse feito um poema inverso deste, um que dissesse algo em “linha reta” ou dentro de um padrão qualquer. A sua antítese (já abusando de uma proparoxítona…).

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