Eu mergulhei e imergi em suas águas profundas. Nadei em meio aos escombros da memória, e ressurgi como a sereia das páginas do livro. Livre, mas presa. Com o peso de toda a sua arte sobre meus ombros. Imersão. É a primeira palavra que me vem a mente, digo à André Gorayeb, depois de percorrer pela montagem de sua primeira exposição solo “Deságua” com abertura nesta terça-feira (17) às 19h na galeria do SESC Arsenal.

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André me conta que é exatamente esta palavra que define o processo para criar a exposição. Imersão. Foram três meses intensos de trabalho.

“Nunca trabalhei em algo tão grande, foi um processo muito doido. E abriu muito a minha cabeça, pensar sobre um tema, não foi só desenhar, que geralmente pego um rascunho e vejo como posso encaixar. Desta vez, tive que pensar em 360º: objetos, desenhos, materiais, ligados à água. E isso mudou meu jeito de pensar e de produzir. Foi tipo uma porrada na cara”.

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Os quadros estão dispostos no chão, em frente às paredes que irão ocupar com suas cores e formas. É domingo. O jardim está iluminado e André corre para lá e para cá para acertar todos os detalhes do cenário que se propõe a criar. E enquanto espero para conversarmos, continuo mergulhada nestas águas profundas, com tantos questionamentos que culminam em mim, que fica difícil respirar.

“Eu fiquei alagado mesmo”, conta André. E concordo. Também fiquei alagada por sua arte.

A água, o corpo, a interferência humana. André me revela que as obras também dialogam com as lendas das águas, com este místico protecionismo que delegávamos aos nossos “heróis”, com causos e estórias envoltos de mistério.

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A exposição “Deságua” está em busca de lembrar e reforçar nas pessoas, o poder da energia da água, que com a intervenção do homem pode se tornar destrutiva.

“Sempre tive uma relação muito forte com a água e depois do desastre com o Rio Doce comecei a pensar nisso e a falar sobre esse tema, e linkei muitas coisas. As histórias dos rios, as lendas, que quando se destroem os rios, os protetores somem, ou passaram por cima deles ou não são lembrados mais, não protegem e as histórias do rio acabam. Quis materializar essas lendas”.

Uma das lendas que André traz para a exposição é a da mão negra. “Uma velha negra que se transformava na mão negra que roubava o peixe dos pescadores”, conta.

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Com o desenho o acompanhando desde a infância, foi aos 15 anos que André Gorayeb começou a criar personagens. “Sempre gostei de modificar, quebrar os brinquedos e criar algo novo, colocar fogo, mudar, intervir. Isso sempre foi natural para mim. E descobri e me encontrei na arte com isso. Não imagino fazer outra coisa que não seja isso”.

A sua percepção do espaço em branco que viria a abrigar a exposição também mudou conforme ia produzindo após pensar na disposição das peças. “Toda vez que eu olhava parecia um pouco menor, a medida que ia produzindo, foi diminuindo o espaço e o medo”.

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E é o incômodo o que o artista quer provocar. “A intervenção, performance, a arte, tem que incomodar mais mesmo. Está tudo muito parado. Temos que fazer outras coisas, além do papel, porque ele não suporta mais as ideias, temos que ir além”. Com esta ideia, André libera o código do alfabeto que criou no início da exposição nesta terça.

É este mergulho, esta inquietação de sentir que a água sobe até seus pulmões e o ar não passa mais. Estar alagada, mas sem se afogar. É a imersão nas águas profundas da arte.

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Foto: Renan Lisboa

 

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Marianna Marimon, 26, escritora antes de ser jornalista, arrisco palavras, poemas, sentidos, busco histórias que não me pertencem para escrever aquilo que me toca, sem acreditar em deuses, persigo a utopia de amar acima de todas as dores. Formada em jornalismo (UFMT) e pós-graduanda em Mídia, Informação e Cultura (USP).

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