O momento em que conheci Regina Pouchain ficou cristalizado na minha memória. Seus grandes e límpidos olhos azuis me fitavam um tanto quanto desconfiados. O corte de cabelo bem curto e os fios vermelhos revelavam a força da sua personalidade. Eu, uma jovem repórter, meio atabalhoada – diga-se de passagem -, a interpelei para que fizesse a ponte com o Wlademir Dias-Pino, quem eu ansiava entrevistar naquela manhã, enquanto o Museu de Arte e Cultura Popular (MACP) da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT) testemunhava o rebuliço tomando conta do espaço onde o poeta visual receberia o seu título de doutor honoris causa. O ano é 2013.

Andávamos pela Praça Mauá no Rio de Janeiro, em 2016, depois de um almoço agradável, quando Regina me aconselhou: “Não demore como eu para publicar”. Ela falava da sua relação intrínseca com a arte e eu dizia o quanto havia me deliciado com seu livro “provenientes do azul”. O seu caminho na arte a levou até Wlademir, de onde bebeu diretamente da fonte. Esse conhecimento e aprofundamento a trouxe aos seus poemas visuais. E de lá para cá, a aprendiz se tornou mestre.

o instante:

uma fronteira escorregadia

impalpável

É difícil se distanciar quando temos uma relação pessoal com a pessoa sobre a qual escrevemos. Burlo, mais uma vez, as regras e normas do dito bom jornalismo. Não é possível falar de Regina sem dizer que ela abriu um universo completamente novo para mim. Se não fosse pela sua generosidade, eu não teria tido o privilégio e a honra de conviver com ela e Wlademir Dias-Pino. Eu abri as portas da minha casa em Cuiabá e ela me revelou um mundo inteiro de arte e possibilidades. Nos conectamos ainda mais em nossa primeira ida ao Rio de Janeiro para acompanhar a exposição Poema infinito no Museu de Arte do Rio (MAR).

Aquele encontro cristalizado nas minhas retinas expandiu o meu conhecimento e me permitiu novos voos. Em outro encontro, foi ela que abriu as portas da sua casa para me receber e passei um final de semana inesquecível ao seu lado, rodeada por livros, recortes, imagens, poemas, poesia. Conversas infinitas sobre arte. Mais uma vez, ela me possibilitou algo inimaginável: horas de conversa e entrevista com o Wlademir. Um presente que irei retribuir no devido momento, mas enquanto isso o conteúdo segue guardado, aguardando a hora certa de vir à luz.

Poema objeto por Regina Pouchain

Regina é uma mulher de cores. Sua casa é colorida com arte. Livros, desenhos, pinturas, colagens, esculturas. Ela me mostra um poema-objeto que Wlademir fez, com um R e um W, como se fosse uma reprodução das iniciais dos nomes cravados em árvores eternizando o amor dos amantes passageiros. Parece que ainda consigo escutá-la feliz ao atender as ligações do poeta e chamá-lo carinhosamente assim: “nosso poeta”. E o escuto dizer em retorno: Regininha!

Poema objeto por Regina Pouchain

Não temos mais a sua presença física. É preciso lidar e aceitar que precisamos dar adeus a tudo e todos que amamos. Mas, assim como um dos seus ensinamentos, prefiro pensar que a arte perdura e através dela, Wlademir segue vivo. Esse processo que resulta em uma espiral infinita de poemas está e sempre estará em aberto. Regina se apropria do poema//processo captando e transmitindo a sua essência em novos sentidos e significados. E o melhor de tudo: com o seu olhar crítico, afiado, e recolocando em seu devido lugar o protagonismo feminino na arte.

Nessa entrevista, falamos sobre o seu movimento em direção à arte, as novas séries de poemas visuais inspiradas na pandemia do coronavírus, possibilidades de futuro, e, claro, projetos: “A vida é muito curta para se contemplar apenas o que os outros fazem”, diz. E assim, a arte transmuta-se:

- Como começa a sua relação com a arte? O que te moveu nessa direção?

Minha relação com a arte começa no início da adolescência. Gostava de música, dança, pintura, e de poesia. Fiz vários cursos de pintura, estudei piano, flauta, mas a poesia foi ganhando força, ocupando espaços. Mais tarde fui estudar filosofia, para poder fazer uma poesia abrangente, profunda e rica. Não me arrependo, pois não sei como eu seria hoje sem a filosofia. Ela me ensinou a conhecer, questionar e a duvidar. Era uma forma naquele momento, de expressar a minha identidade. As outras coisas não me interessavam academicamente. Só as artes visuais.

Poemas visuais por Regina Pouchain
 - Além das palavras, você encontrou na poesia visual uma das suas expressões 
artísticas. Como você entrou nesse universo e quais foram as suas primeiras 
experimentações com a arte visual?

O poema//processo faz uma distinção entre poesia e poema. Poesia tem uma relação direta com a palavra, o discurso, a tradição escrita da poesia, já o poema, é material: você pode quebrar, amassar, comer. O poema pode ser uma fotografia, uma flor, enfim… é material.  Assim eu percebi que poderia fazer artes plásticas, sem trair a poesia, enfim poderia reunir artes visuais e poema. Foi uma descoberta que resolveu minhas contradições estéticas, digamos assim. Pude reunir dois universos que pareciam opostos. Meus trabalhos visuais conscientes têm início com o poema//processo. Eram poemas políticos basicamente.  Depois comecei a trabalhar com colagens e a fazer livros de artista, livro-objeto, poemas eletrônicos. Mas nunca abandonei a poesia tradicional, que em virtude da minha atividade nas artes visuais, cada vez minha poesia foi ficando mais sintética. E as artes visuais mais barrocas! Atualmente aproveito o máximo do espaço do papel, ou a página de um livro com imagens. É bonito ver o ruído do mundo conversando em imagens que se relacionam. Eu me divirto. 

Poema objeto por Regina Pouchain
- No Brasil, o setor cultural continua sistematicamente relegado ao último plano 
por parte dos governos, e uma de suas características é a resistência dos 
artistas. Como você entende esse projeto político de distanciamento entre 
população e arte?

A resistência é um modo de sobrevivência. Há pessoas que não conseguem viver sem arte. São seus remédios, seu paliativo,  ou sua maneira de estar no mundo. Uma forma de suportar uma sociedade tão cruelmente desigual.

Da parte dos governos que temos visto, parece que a arte é apenas uma mera formalidade ou adereço. E não a expressão do caráter, da identidade de um povo, de uma cultura.  Talvez pensem que seria algo dispensável, que não mereceria mesmo dedicação ou investimento. Assim sendo a formação artística de uma maneira geral é superficial, desconsiderada, negligenciada. Se a universidade tem vivido anos e anos de penúria, o que dizer então da vocação artística em geral? E de seu ensino, em particular? 

- A sua nova série de poemas visuais sobre a pandemia traz imagens fortes e 
críticas sobre o atual estado de coisas que se instaurou no Brasil, com um 
genocídio oficializado pelo Estado e ventilado em todas as mídias. 
Como você traduz esse momento através da arte?

Com a série de 25 ou 28 poemas visuais que fiz sobre a Pandemia, tentei de alguma maneira documentar a que ponto chegou nossa sociedade doentia. Como poeta me senti na obrigação de relatar/delatar visualmente esse momento tão tragicamente marcante que ainda estamos vivendo. Delatar a forma ignóbil e indiferente de um presidente que tem cinicamente a coragem de dizer, diante do falecimento de milhões de pessoas que isso não passa de uma gripezinha. 

- Qual é seu processo criativo e o que te inspira a criar poemas visuais?

Não tenho um processo criativo de forma geral e sim determinado, particular. Quando escrevo de forma tradicional uso uma determinada técnica, em geral cortando as palavras, os exageros, as repetições, sinônimos, adjetivos em excesso, procurando o sentido mais sintético da língua. Quando trabalho com a visualidade, depende do objeto.  Se for um poema visual, penso no tema que quero abordar, mas é indispensável se ter uma reserva de imagens para que se possa lançar mão. E aquilo que inspira vira uma obsessão. Agora é a Pandemia ou o seu oposto: Ode à Vida.

Sendo fotografia, o meu olhar recai sempre ao redor de detalhes.  Não gosto de paisagens e nem de fotografar um corpo por inteiro.  Gosto de um detalhe do corpo, um detalhe de um objeto, uma hipótese de detalhe, uma sombra, enfim…minimalista na fotografia.  O interessante ainda no ser humano é  essa multiplicidade de olhares…

 - Qual a sua percepção para o futuro, diante desse momento histórico que 
vivemos, tanto na produção artística quanto na reorganização social e política? 
Têm novos projetos em vista? 

Não tenho a menor ideia sobre o futuro. Creio que melhor seria o desaparecimento da nossa espécie. Caso fosse possível a sobrevivência das outras. Mas acho que o ser humano vai inventar uma maneira de se autodestruir e levar com ele, a flora e a fauna que restam.

Não vivo sem projetos. É um desperdício. A vida é muito curta para se contemplar apenas o que os outros fazem. Creio que o ser humano tem que procurar uma forma de se dar sentido, de justificar a própria vida. A única coisa que sempre me deu e me dá sentido é a arte. Ela me levou aos melhores lugares e me trouxe as melhores pessoas.

Regina Pouchain

30/06/2020

 

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