Por Luiz Renato de Souza Pinto*
Para inventar histórias e colocá-las em livro, ganho dinheiro. Para inventar histórias e contá-las a um psicanalista, preciso pagar (TRIDAPALLI, 2014, p. 126).
Vencedor do Prêmio Minas Gerais de Literatura, de 2013, Cezar Tridapalli é autor de dois romances da nova safra de narrativas brasileiras que extrapolam o que se denomina de literatura experimental. Paranaense de Curitiba, onde sempre morou, segue a trilha de Dalton Trevisan, com seus cemitérios de elefantes e vampiros urbanos entre os casulos desabitados pelo humano criador nessa cidade que também abraçou ao kamiquase Paulo Leminski, referência abissal da poesia brasileira.
Como qualquer outro conceito forjado pela crítica, este, literatura experimental, também é arbitrário, uma vez que sugere uma abordagem válida, embora ligada a uma visão estética e doutrinária dentro do cabedal da teoria literária. Carlos Heitor Cony, um dos ícones da produção literária brasileira, quer do ponto de vista ficcional, quer crítico, declarou certa vez que perde a oportunidade de conhecer novos autores por não arriscar ler determinada obra sem a certeza de que iria gostar, o que faria com que sua preferência orbitasse em torno de um clássico, – certeza de que não se arrependeria.
Tridapalli faz uso de referências metalinguísticas o tempo todo. Quando me refiro à sua obra como experimental, no campo da linguagem, quero dizer da riqueza de intertextualidades, do inusitado de algumas situações de contexto e do que há de mais interessante em ficção (pelo menos é o que eu acho e considero), que é o estranhamento. Se para o cânone há uma sacralização do texto, o que muitas vezes transforma a criatividade em sisudez, em pequena biografia de desejos e O Beijo de Schiller observamos certa leveza na costura sem perdas de intensidade e vibração na tessitura do texto. A metalinguagem se faz presente de maneira a demarcar todo um tráfego de influências que provavelmente vem da leitura e conhecimento de obras ao sabor acadêmico que se misturam ao doce sabor da experimentação estética. Tridapalli me parece um hermeneuta em busca de seu lugar ao sol. E brinca com os raios da aurora que atravessam o dia espalhando claridade e luz para as sombras de suas criações estéticas.
Desidério, Cevício e Justício, por exemplo, trazem nos nomes uma representação caricata que vai ganhando profundidade com o desenvolvimento da história. A trama vai conduzindo o leitor a um labirinto similar a um bom texto policial, como se o criminoso estivesse sempre à espreita a fim de materializar a sua tese de livre defesa do texto literário. Essa alteridade no processo criativo é fruto de uma perseverante busca desprovida de certo graal. Seu romance de estreia traz de maneira enigmática um jogo de signos que se entrecruzam misteriosamente em uma arquitetura ágil e profunda que não deixa o leitor à vontade para imaginar um fim. É uma pequena biografia de desejos.
Em seu segundo romance, a animização de uma rua ganha contornos de protagonismo exemplar. Um sequestro atípico que me lembrou do clássico filme de Almodóvar Ata-me, em que um sequestrador e sua sequestrada vivem um caso amoroso entre quatro paredes, ganha contornos fantásticos em que o trilher policialesco parece mesclar-se a elementos insólitos capazes de provocar no leitor uma insuspeitada desconfiança de que a obra se sustente pelas quase trezentas páginas. Mas ele o faz! A criatividade, marca desse escritor que comprova com sua escritura que talento é uma questão de atitude para com a escrita. Mas agora não consigo deixar de pensar em Vitória April e as delícias da película do espanhol.
Vejo certo minimalismo nas construções sintáticas, no desenvolvimento das ideias e de seu ponto de equilíbrio. Cezar parece distrair-se com pequenas coisas que transforma em deleitosas preparações para golpes certeiros que o teclado de seu computador registra. E ainda por cima nos joga na cara coisas que caberiam bem em tratados sobre uma cultura pós-contemporânea, como no fragmento abaixo:
Eles colocaram a cultura, a arte como um dos alicerces básicos da civilização. Pra você ter uma ideia, um dos maiores orçamentos italianos é destinado ao Ministério da Cultura deles. Quando que a gente vai imaginar isso aqui no Brasil, Desidério? É Certo que também eles precisam investir nisso por ser o turismo uma das principais fontes de renda (TRIDAPALLI, 2011, p. 119).
O romance é espaço para qualquer divagação, desde que bem colocada. Em O Beijo de Schiller, de onde extraí a epígrafe desta crônica, identifiquei-me de imediato com a ideia persecutória de uma imagem entre Irene e Sebastião, que a narrativa dessacraliza de forma acachapante. A imagem do soldado romano flechado a mando de Maximiliano é reconfigurada de maneira irônica pelo paranaense ao longo do texto. E a perseguição a esse quadro, a essa imagem mítica, retoma em meu pensamento aquela situação prescrita em Oscar Wilde, via Dorian Gray.
Há quadros e mais quadros em suas obras. Pinturas que descrevem situações inusitadas que alimentam a boa literatura liberam a imaginação do leitor em busca de seu próprio mundo. Enquanto houver livros e a cadeia produtiva do setor for alimentada pelo interesse em desvendar o que se pode ser pensado haverá espaço para acreditarmos em um mundo melhor. Nem que seja nas páginas internas de um bom romance que nos entretenha entre um pagamento vencido e o próximo salário. Ainda bem que as livrarias não vivem sem o cartão de crédito. Tridapalli e Carol Bensimon estarão comigo no próximo dia 20/06 em bate papo no IFMT (15 horas) e na UFMT (19 horas) pelo projeto Arte da Palavra, do Serviço Social do Comércio. E nem é preciso pagar para ver e ouvi-los, é só chegar!
REFERÊNCIAS
TRIDAPALLI, Cezar. pequena biografia de desejos. Rio de Janeiro: 7LETRAS, 2011.
________________. O Beijo de Schiller. Curitiba: Arte & Letra, 2014.
*Luiz Renato de Souza Pinto, poeta, escritor, leitor, ator, professor, e...botafoguense.




















e critico de literatura de envergadura, ai ai botafoguense ein…