Ah, hoje eu aceitei uma chamada, uma corrida literária. Várias chamadas, letras pipocando feito acompanhamento de cinema na minha cabeça. No coração o sentimento de crianças e mulheres ameaçadas, espancadas e estupradas pelos próprios motoristas. Tá difícil passar imune aos taradões da direção. A facilidade em começar a trabalhar para um aplicativo mostra seu lado mais infame quando se trata de violência sexual.

Parei pra comprar um livro do Eduardo Ferreira, na livraria Janina, no Shopping Pantanal, entrei com máscara, álcool em gel e sangue nos olhos depois de ler o levantamento do site Theintercept.com

Saindo do shopping, folheando “eunóia” e dirigindo ao mesmo tempo, imprudentemente, é claro, lembrei cerrando meus dentes das histórias de estupro. Chorando e com vontade de matar desgraçados definidos pelo Artigo 213: jusbrasil  o destino me usou feito luz e trevas para corrigir o mal que atormenta pessoas abusadas.

Inseri o ticket de saída do estacionamento, peguei a avenida Historiador Rubens de Mendonça em alta velocidade, acelerei o quanto podia, olhei para o velocímetro digital do meu carro automático, passava de 120 por hora. Pisei mais fundo, passei a mil em frente à Acrópole, Subway, posto de gasolina, feito frames de um filme. Sangrando no rosto, sentindo minhas lágrimas, acelerei ainda mais. Furei outro semáforo, os carros buzinavam. Eram 9 e pouco da manhã. Vermelhinho Cópias, Edifício Paiaguás, farmácia Pague Menos, Smart Fit; furei outro semáforo, já estava a quase 150 por hora. Curva à frente embaixo do viaduto, desviando dos carros, Polícia Federal, Caixa Econômica, outro semáforo, um KA branco.

Freada.

Powww.

Nada.

Dor. Hospital, estou deitado. Tonto. Um celular ao meu lado, soro nas veias. Pernas quebradas, engessadas e operadas. Estou vivo. Pego meu celular: de costume leio notícias, a maioria sobre eleições. Abro meu instagram, mensagens de amigues mais próximes desejando-me melhoras. Visita na enfermaria: minha filha mais velha e minha namorada entram. Quietas elas olham pra mim. Brunilda quebra o silêncio. Pai, você matou um cara. Olhei assustado pra Afrilda. Afrilda amplia. Amor, o cara ia ser preso. Ué, respondo sem entender nada. Perguntando, como assim? Afrilda – mandei um link pra você. Olhe aí no seu celular. Cliquei. Matéria do Diário de Cuiabá, manchete, capa do jornal: Motorista sem cinto e com mandato de prisão por estupro de vulnerável morre em Cuiabá.

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