Uma cidade deve aprender a respeitar seus rebeldes. Uma cidade é feita de muitos caminhos. Todos os lugares que compõem uma cidade fazem parte de sua definição. Todas as tranças e tramas e tramelas revelam significados. Nada há de escapar dessa transa onde todos copulam para sobreviver e realimentar a máquina. Maquinal o jeito que repetimos façanhas e inutilidades.

Todas as medidas passam pelas réguas. O poeta Antonio Sodré invade a cena e diz sem pestanejar: eu não quero as réguas para traçar os meus caminhos, eu prefiro as éguas num galopar torto e veloz. Liberdade tem nome e galopa cruzando a imaginação a mil por hora.

Mas a alma punk habita muitos lugares nessa cidade.

Foto: João Fincatto
Foto: João Fincatto

Renascer, reduto punk em Cuiabá. O punk envelheceu e agora sabe o que quer, ecoa da boca do Batman, letrista e vocalista da banda Ruídos de Horror. Renascer é fruto de uma ocupação urbana bem sucedida. Virou bairro de classe média. Vive outro ciclo em sua formação e desenvolvimento urbano a alimentar a boca monstruosa da cidade.

Ruídos de Horror é uma banda que tem a cara da diversidade social, étnica, cultural. Em sua formação atual tem advogado, micro empreendedor, técnico em ar condicionado, estudante, músico profissional, enfim, ocupa faixas sociais aparentemente desconexas, no grande corpo Frankenstein que vai virando essa cidade. Surgem becos, guetos, muros altos e de lá, do outro lado da linha divisória, ecoa pelo bairro, em alto e bom som, a revolta, a dignidade seca crua e dura das poéticas subterrâneas.

Foto: João Fincatto
Foto: João Fincatto

Pergunto ao Batman se eles não têm problemas com os vizinhos? Afinal, vizinhos e rock’n’roll nunca foi uma combinação muito feliz. Treta, treta mutreta, os muros separam as mutretas, cada qual no seu quadrado. Batman responde que foram dos primeiros a ocupar o bairro e que o pessoal respeita-os na boa.

O ensaio começa e aos poucos vai esquentando. Ao final de dez músicas não resisto e exclamo: Cara, vocês tem que começar o show com essa intensidade! Tem que esquentar pra valer antes de entrar no palco e já entrar queimando asfalto! O palpite aqui não é grafitado, mas é o limite, impossível não recordar de Paulo Leminski.

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Foto: João Fincatto

Ryuler, baixista da banda Ruídos de Horror é advogado: “O CD não é só uma questão musical, mas política também. Seguimos o lema, faça você mesmo. A ideia da banda é levar a mensagem punk, liberdade com consciência.”

Pedro guitarrista, estudante, aspirante a estudar música na universidade: “Só estou fazendo música atualmente, toco em outra banda também. Pelo equipamento que usamos, o CD saiu com um resultado bem satisfatório, tudo caseiro, ágil e mais fácil de fazer do que era antes. Não sou punk, sou anarquista, mas considero muito o movimento punk. Nossos ideais de liberdade e igualdade se encontram no mesmo campo de luta.”

Jair, guitarrista. Músico rodado no rock cuiabano, de GTW, Nidhog, Blokeio Mental e etc. É técnico em ar condicionado: “A gente resolveu fazer o disco pra ficar marcado, pra registrar. Pra mostrar também pra gurizada que qualquer um pode gravar seu disco, não precisa de patrocínio, não precisa de ninguém mais, além de você mesmo e a vontade de fazer.”

Jean Gabriel, 25 anos, artista visual, baterista há um ano e meio na banda: “Nossa demo chegou a 80% do que podemos chegar. Gravado aqui mesmo, no estúdio garagem, onde fazemos os ensaios, caseiro total. Fiquei muito satisfeito, principalmente pensando onde podemos chegar. Respeito muito o movimento punk, apoio as causas, suas lutas.”

Maryellen tem 22 anos, estudante do ensino médio, faz vocal com o Batman: “Conheci a banda há alguns anos, sou punk, ativista, sou fã da banda, participo dos movimentos de resistência, sou street punker, na verdade. O CD é uma bomba ativista mesmo, não fiz parte, estou entrando agora como vocal junto com o Batman. Meu objetivo na banda é espalhar a ideologia punk de liberdade, de expressão livre, mostrando que podemos sim ser diferentes. Juntar as forças e lutar contra toda a manipulação.”

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Foto: João Fincatto

Batman é velho de guerra, um dos pensadores da causa punk em Cuiabá. Sempre liderou movimentos, produzindo eventos e ações diversas, criando. Já passou pelo noise, rap, punk, o cara já é criado nas tramas underground da cidade, criou filho, continua fazendo som, microempreendedor, vocalista, letrista:

“Hoje é tudo mais simples. Mas não dá pra ficar de bobeira, só plugado na internet, tem que usar bem esses veículos, não ficar refém deles. Mas, tem muito preconceito com o punk ainda. O punk hoje não é mais aquela coisa só de juventude, agora o punk envelheceu e sabe o que quer.”

Conversar com o Batman provocou em mim uma sensação de nostalgia, mas não no sentido de saudade de um passado recente, dos anos de 1980, mas antes de um deja vu, de sentir na pele os mesmos calos, as mesmas durezas de resistir ao tempo em posição tão aparentemente desconfortável. Viver dignamente não pode ser desconfortável, a cabeça cai no travesseiro e dorme, feito pedra. A exalar tempos de muitas lutas onde uns poucos seguem pela vida lutando sempre. Outros quedam, e o sistema bota a corrigir trajetórias tortas.

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Foto: João Fincatto

Mas a década de 1980 veio fumegando feito trem Maria Fumaça na cabeça que toca a relembrar e vos convida a revisitar a memória viva de uma década importantíssima na formação cultural urbana de Cuiabá. Impossível não recordar do Batman e do Corvo (hoje comandando a banda Malevah) como parte de uma movimentação primordial fazendo surgir uma cena roqueira autêntica e forte na cidade, com o Blokeio Mental, que ao lado de Caximir, SS, Alma Negra, Gtw, Nidhog, BR364, Kabalah, Os Beneditos, e várias outras, fizeram um barulho danado na época. Criou-se ali, um embrião de uma cena que vicejou.

Hoje podemos celebrar novos espaços de resistência e avanços no pensamento que vai se formando e constituindo as bases de uma cidade plural na sua expressão musical e artística. Cuiabá hoje é uma proto-metrópole que nada deve a lugar nenhum em termos de expressão, de linguagens, de arte, de ciência, filosofia e tudo mais que caiba nesse vasto repertório.

Foto: João Fincatto
Foto: João Fincatto

Ruídos de Horror é, então, uma mescla de jovens com figuras rodadas que ainda põem a cara, a tapa, como Batman e Jair. Dois irmãos imprescindíveis nessa historiografia formadora da arte urbana na capital mato-grossense.

O lançamento do CD é no dia 4 de junho no Cavernas Bar. Como parceiros de luta, uma banda de Sinop, a Religião do Foda-se, e Rusga, de Barra do Garças. O punk mato-grossense não respeita fronteiras e pede respeito.

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