Paul disse que cada caixão comportava até quatro corpos, Paul falou de um plano Illuminati de extermínio em massa. Falou sobre um governo satânico de reptilianos e sobre discos voadores. Falou de engenharia reversa e da parceria tecnológica entre humanos e alienígenas na telefonia celular (MUTARELLI, 2019, p. 30).

Toda obra é excreção. Esta de Mutarelli, o é. As crescentes zoomorfizações apresentadas ao longo das 328 páginas dão certo tom de animalização do planeta. Se pensarmos na Covid-19 como uma das doenças-X, anunciadas pela comunidade científica internacional, não há nada de profético nisso, o que contraria discursos apocalípticos que são típicos de cenários proto-mutantes como o que vivemos. Só que não. Só que sim, e o que é pior, sem perspectivas de melhora para os próximos meses: durma-se com um barulho desses. Ou um silêncio desses, sei lá como é que você, leitor, se sente.

Com uma personagem  alcóolatra no centro da narrativa, já entramos nessa vibe desde o início: “Ao primeiro gole, seu cérebro já abanava o rabo” (idem, p. 36). E não se para por aí, a obra transmuta elementos de romance policial, cruzando roteiros de ficção científica capazes de provocar um nervosismo desenfreado, incômodo que se desfaz apenas ao final de leitura. Considero a trama o ponto alto da construção. Um enredo que convence o leitor desde o início. Há certo controle do emocional do leitor pelo autor; talvez pelo fato de que a escrita seja mesmo obra de engenharia. Em meu caso específico, a catarse durou três dias, e no meio do furacão da nova gripe que se espalha pelo mundo todo. Atchim!

Lourenço Mutarelli

Interessante ver como personagens são nomeados, quase todos, independente do grau de importância, recebem nomes de criminosos homônimos que cometeram crimes bárbaros entre os séculos XVIII e o XX (Murderpedia). Homens e mulheres, claro, com algumas especificidades que nos provocam alguns risos, em meio ao pânico: “Quase todas as assassinas matam por envenenamento” (idem, p. 56). Há também duplicações de nome como se o procedimento funcionasse como duplo de personagens. Fico a imaginar que funções desempenham aspectos como esse na cabeça do leitor. Mas apenas imagino, sem a pretensão de concluir nada a respeito.

Lourenço Mutarelli

A história se passa entre os anos de 2007 e 2017, com rápida passagem por 2010 para pontuar algumas reflexões, ou ajuste de contas com certo passado do protagonista. Não é demais lembrar que, em 20 de março de 2017, Eduardo Ferreira publica neste mesmo site um artigo sobre a escrita de Mutarelli, também entrevistado por ele e, ao final, Ferreira afirma que os cursistas da oficina [de Mutarelli] já aguardavam por sua volta, e que atribuíram a essa, o fato de o escritor ter comido cabeça de pacu. George, o personagem central, também o fez, além de experimentar o escaldado no Choppão e visitar a Chapada dos Guimarães, curiosidades de nosso estado que aparecem no livro. Não apresentarei citações que comprovem tal afirmação para que você vá direto ao livro que traz, logo nos agradecimentos, informações curiosas para os leitores: “Este livro é dedicado a Antonio Prata e Kurt Vonnegut. E ao Google, Google Maps, Google Tradutor, à Wikipedia e à Murderpedia. Vida longa e www” (idem, p. 5).

E ao longo da escrita, essa referência surge em forma de diálogo: “- Se os pobres mortais têm acesso ao Google, à Wikipedia e ao Youtube, imagina o que os serviços secretos não têm em suas mãos” (idem, p. 85). O fato de inserir elementos do mundo virtual, da grande rede de computadores (talvez o novo deus) cria condições para que a leitura se espiralize em cada um. Bacana as relações para dinamizar e dar verossimilhança ao texto. O mergulho vai criando certa tensão no leitor “E todos falam e falam toda aquela bosta de touro e se a araponga acutila, o tucano chalreia, o sabiá modula, a pomba arrola, o pinto pia, o touro berra, muge, bufa e urra, e o homem prega (idem, p. 86). – o grifo é meu!

Pinterest: Astronauta, desenho de Lourenço Mutarell

Maniqueísmos vão surgindo e entrelaçando discursos, até mesmo há uma explicação sobre a existência dos maniqueus e suas manias e contradições. O título do livro vai ficando mais claro do meio para o fim, até porque “- Das inúmeras formas que o Diabo assume, a de Deus é a sua preferida” (idem, p. 137). Provocações de grande impacto na cultura cristã que se apavora com a escritura profana de Mutarelli. “O que passou pela cabeça de George foi que talvez Sarah estivesse tentando dizer que a maioria das pessoas ama o segundo filho de Deus em vez de amar e cultuar o primeiro. Provavelmente por isso Sarah colecionava tantos títulos sobre o Demônio” (idem, p. 200). – bafo!

Por Deus, Jesus Cristo, Maria e José; agnósticos e ateus vislumbrarão coisas de outros mundos com este livro, mas dentre os cristãos, somente os que fora de uma ortodoxia qualquer, não deixarem de acreditar em Deus e atribuam o que leem à criatividade linguística e imaginação do autor. Em que pesem as linhas finais em que se lê: “O que o reverendo omitiu, ou disse de forma oculta e cifrada, é que o ato de Sarah Simpson foi um sacrifício à deusa Diana” (idem, p. 328).

O grifo Mutarelli | vício profilático

Joseph Campbell, do alto de sua sabedoria acerca do estudo dos mitos, nos lembra de que: “Apesar do que apregoa o movimento ´unissex´, as diferenças são radicais do princípio ao fim. Isto não se aplica apenas a uma situação culturalmente condicionada, mas também aos animais, aos chimpanzés amigos de Jane Goodall, por exemplo” (CAMPBELL, 1997, p. 7). Antes que me joguem alguma pedra, vejam bem: quem falou foi Ele!

 

REFERÊNCIAS

CAMPBELL, Joseph. As transformações do mito através do tempo. São Paulo: Cultrix, 1997.

 

 

 

 

 

MUTARELLI, Lourenço. O Filho mais velho de Deus e/ou Livro IV. São Paulo: Companhia das Letras, 2019.

 

 

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Ao completar vinte anos da publicação de meu primeiro romance, fecho a trilogia prometida com este volume. Penso que esse tempo foi uma graduação na arte de escrever narrativas mais espaçadas, a que se atribui o nome de romance. Matrinchã do Teles Pires (1998), Flor do Ingá (2014) e Chibiu (2018) fecham esse compromisso. Está em meus planos a escritura de um livro de ensaios em que me debruço sobre a obra de Ana Miranda, de Letícia Wierchowski e Tabajara Ruas; o foco neste trabalho é a produção literária e suas relações com a historiografia oficial. Isso vai levar algum tempo, ou seja, no mínimo uns três ou quatro anos. Vamos fechar então com 2022, antes disso seria improvável. Acabo de lançar Gênero, Número, Graal (poemas), contemplado no II Prêmio Mato Grosso de Literatura.

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