Por Sika*

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Minha família no final dos anos 80. Toda reunida na ‘chácara’ em Rondonópolis, lugar onde passamos uma das melhores épocas de nossas vidas.

Quando fecho os olhos, acho que posso conseguir sentir o cheiro da terra molhada e o grito das cigarras pelas árvores. Assim como o som da rastela passada pelo meu avô nos finais da tarde, ou da minha avó dando milho para as galinhas. É como se eu pudesse voltar no tempo em fração de segundos.

Tiramos diversas fotos do tipo ao longo dos anos. Não me lembro deste retrato em si, mas estou nele. Um bebê gordo e careca, sentado ao colo de minha avó, ao lado de meu avô. Não sei também exatamente quando ela foi tirada, mas acredito que no fim de um ano daquele. Época em que toda a família se reunia. Digo, toda mesmo. Essa era uma das únicas certezas que todos tinham.

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Apesar da correria, das crianças pequenas e das que estavam crescendo, era imprescindível a presença dos filhos e netos na ‘chácara’. Meu avô, um japonês de 1,50m de altura, sempre fez questão de ter todos reunidos neste rito de passagem. Era uma tradição que não podia ser quebrada.

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Éramos em mais de 20 primos. Todos de olhos puxados e roupas largas, típicas daquele tempo. Lembro que os grupos eram bem divididos: os mais velhos, que gostavam de escutar ‘Double You’ ao lado do som; os de até 13 anos, que se resumiam na maioria meninos e duas meninas, brincando de betz na areia; e os menores em meio à lama, brinquedos e bicicletas, até cair nas mãos de uma tia que adorava catar piolhos (eu fazia parte deste).

Meus pais, juntos com os meus tios, ficavam na parte cimentada da varanda. Tomavam cerveja e assavam carne à sombra de uma enorme mangueira. Os assuntos eram longos. Minha avó, sempre prestativa, tentava deixar tudo limpo e organizado. Não parava. Era difícil não vê-la à beira da pia, lavando toda louça.

Embora houvesse o clima de descanso, todos se organizavam para a grande noite do dia 31. Os pratos eram quase sempre os mesmos do ano passado (e do próximo ano também), com direito a uva passas e a melancia cortada em zigue e zague. Todos eram bem posicionados em uma mesa longa de madeira, que era trazida da cozinha para o lado de fora da casa.

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Ao entardecer, as funções ficavam mais complicadas. Os adultos se dividiam entre arrumar a comida da ceia e mandar a criançada tomar banho. Missão quase impossível para um lugar que tinha apenas um banheiro.

Em média, três crianças ficavam no chuveiro e outras três no ofurô, que era aquecido por fogo a lenha. Até hoje me questiono se saíamos de lá limpos, pois era grande a quantidade de areia esparramada no chão.

Apesar da loucura, da correria, dos gritos e choros, uma hora tudo se acalmava. A mesa estava enfeitada e todos bem vestidos. Momentos antes da meia-noite, um silêncio. Começava o discurso do meu avô.

Ainda que tivesse estatura baixa, ele se agigantava naquele momento através daquela fala grossa e precisa. Eu, como tinha pouca idade, não costumava prestar muita atenção no que ele falava. Mas lembro que sentia a soberania daquele momento, como se as palavras fossem imprescindíveis. E eram. Meu avô fazia jus à imagem de um velho japonês, de semblante calmo e que gostava de ler. Ele era um sábio.

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Ao fim, a contagem regressiva seguida de um brinde. Em coro, todos gritavam: BANZAI, BANZAI! Os copos se batiam, a bebida caía, as pessoas se abraçavam (alguns choravam – bastante), as mãos se apertavam, sorrisos se espalhavam e a música começava: “adeus ano velho, feliz ano novo…”. Logo depois, todos caíam na dança com marchinhas de carnaval. Frutos de alguns discos do meu avô.

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Os corações pulsantes, os olhares esperançosos e a felicidade de estarmos onde estávamos. Aquela união nos comovia. Tanto que dormíamos todos juntos, na mesma casa. Entre os quartos e a sala, enfileirados de colchões, malas e crianças.

É. Essa e outras fotos me metralham de lembranças, com histórias que vão além das poses e das roupas bem passadas. Ela é a representação do deleite de cada um, sem deixar que o tempo leve embora.

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Este conjunto de memórias me faz sentir que nem tudo é passageiro. Prova disso é que a reminiscência destes finais de ano é eterna. Não sei explicar. Só sinto. E, sim. Ainda posso sentir o cheiro daquela terra molhada e do grito das cigarras. Pois tudo foi, como devia ser. Perfeito.

*Sika é jornalista, neta de Massao Ishizuka e Teruko Ishizuka (em memória)

2 Comentários

  1. Sika quanta lembrança. Amei me ver em fotos e ter uma foto tirada por mim em seu lindo texto. Me fez ter certeza que não foi um sonho e sim uma linda história de um avô e uma avó japonesa adotados e muitos primos, tios e tias.
    Obrigada por esse lindo texto.

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