Por Lucas Ninno*

Os bastidores da cobertura de três fotógrafos no maior crime trabalhista da história brasileira.

Sexta-feira, 25 de Janeiro de 2019

Aquela era uma data especial. São Paulo, a cidade que escolhi para morar há pouco mais de um ano, fazia aniversário. Para comemorar suas 465 primaveras, o dia nos brindaria com vários shows gratuitos e eu estava em um deles, na Avenida Paulista, quando vi a primeira notícia no celular sobre a barragem que ruiu na Mina Córrego do Feijão, em Brumadinho-MG. Quando cheguei em casa, por volta das 15h, me deparei com a manchete que deu a dimensão da ocorrência: mais de 300 desaparecidos, provavelmente soterrados pela lama de rejeitos de minério. Era como Mariana, mas muito pior. As informações eram poucas, mas suficientes para saber que aquela história era muito importante. Simplesmente, de maneira surreal, tudo estava se repetindo, dessa vez a Vale, segunda maior mineradora do mundo, com um valor de mercado estimado em 300 bilhões de reais, protagonizava a morte não só da natureza, mas da gente que ali vivia e trabalhava para construir seu lucrativo império. Fiz algumas contas, medi distâncias, carreguei baterias, liguei pra um punhado de pessoas e postei um pedido no instagram para encontrar amigos e dividir custos da viagem até Minas. A Pau e Prosa, uma agência incrível onde trabalhei quando morava em Cuiabá, achou importante que eu fosse documentar e ajudou na locação de um carro em BH e outros custos. Foi assim que, na madrugada do sábado, embarquei de carona para Belo Horizonte.

Sábado, 26 de Janeiro de 2019.

No carro, conheci o Felipe Beltrame, mais um fotógrafo que partia atrás daquela história. Felipe é jovem, boa praça, obstinado e talentoso. O acaso nos fez bons amigos e companheiros de perrengues e dividiríamos, além de água e bolacha, as cenas mais dolorosas que já vi. Chegando em BH no fim da manhã, alugamos um carro e partimos para Brumadinho. O peito apertava conforme íamos avançando pela sinuosa MG-040, já avistando helicópteros, viaturas policiais e carros de bombeiros e voluntários. Um pouco antes da cidade, vi uma ponte com várias pessoas observando o Rio Paraopeba e decidi parar. A água, se é que se pode chamar aquele líquido assim, estava marrom-avermelhada, com a consistência de um chocolate. Um barro estranho, parecendo nuvem submersa, borbulhava vindo do fundo em alguns pontos. Manchas de óleo também desciam na correnteza. “É, quem pescou pescou, quem não pescou não pesca mais” — ouvi um senhor dizer. “Como era essa água?” — perguntei. “Clarinha, clarinha” — disse ele. Ali tivemos uma pequena amostra do inferno que se apresentaria mais adiante.


Homem observa o rio Paraopeba carregado de rejeitos de minério em Mario Campos, pequena cidade antes de Brumadinho. (Foto: Lucas Ninno)

Chegamos em Brumadinho e logo pegamos a estrada que leva a Piedade do Paraopeba, enquanto eu pensava como aquele nome era sugestivo. Tristes coincidências. Havia um bloqueio 5km depois, pois a lama de rejeitos lançada depois do rompimento da barragem cortou a estrada. Me apresentei como imprensa e os bombeiros nos deixaram passar com uma condição: a confirmação de que estávamos cientes do risco, pois uma segunda barragem — essa de água, que chegaria muito mais rápido — estava a ponto de se romper. No fim da rua, avistamos a massaroca viscosa, mole e escura que havia interrompido a rota.

No trecho da estrada para Piedade do Paraopeba que foi cortado pela avalanche de lama, um resgatista usa mede a altura da lama e tentar encontrar algum corpo sob os rejeitos.

(Vídeo: Lucas Ninno)

Foi nosso primeiro contato com a dimensão catastrófica da tragédia e também o inicio da tensão. Barro, pedaços de pau, cerca, antena parabólica, colchão, plástico, telha. Tudo estava misturado em um lamaçal sinistro, com o pequeno curso de água do Córrego do Feijão se esforçando para serpentear entre aquela destruição toda. Eu e Felipe entramos em uma casa à esquerda da estrada, que escapou da lama por apenas alguns metros. Resgatistas estavam tentando identificar algumas formas que se pareciam pessoas. Quando um deles viu minha 70–200 (uma lente para longas distâncias), pediu que eu fotografasse alguns pontos. Também pediram auxílio para um cinegrafista que possuía um drone. Topamos ajudar e descobrimos que eram apenas sacos plásticos grandes. Começou a chover e ouvimos um grito. Todos correram para fora da casa, assustados. Era alarme falso, a barragem não havia estourado, mas a tensão e o efeito manada disparou o coração e o instinto de sobrevivência ao sinal de qualquer ruído estranho. Ficamos mais alguns minutos por lá e decidimos sair. Não queríamos virar números e ao contrário do que muita gente pensa, eu não acho que vale a pena se arriscar tanto por uma foto.

Tomamos o caminho de volta a Brumadinho e na ponte que cruza o Paraopeba, já no centro da cidade, uma cena me chamou atenção. As pessoas se apoiavam no parapeito gradeado, observando a nova forma da “água”, viscosa, lenta e estranha. O silêncio cortado por lamentos curtos, me fez pensar que aquilo parecia um velório. O velório do Paraopeba, o cadáver de um rio. Sobre as águas, um Martim Pescador dava rasantes inúteis. Não há mais peixe nem qualquer forma de vida dentro desse líquido. Fiquei imaginando o que pensava seu pequenino cérebro de passarinho dentro daquela cabecinha azul. Ele estava tão perdido quanto os moradores de Brumadinho, que tentam ainda entender como a Vale, uma empresa bilionária, deixou aquilo acontecer. Pela segunda vez. No meio do murmúrio, a revolta ia tomando conta.

No final da tarde, dirigimos rumo às instalações da Vale, no topo das montanhas. Ao chegar no portão, seguranças nos mandaram ir embora, claro. O caminho de volta passa por um vilarejo chamado Tejuco, e foi lá que conhecemos o Sr. Eugênio. Ele acenava desesperadamente na beira da estrada, tremendo. Baixamos o vidro e ele disse: “Moço eu não sou ladrão, me leva pra Brumadinho, eu vim de Belo Horizonte pegando carona com 20 reais no bolso por que o meu irmão tá lá na lama. Eles não deixaram eu entrar. Eu quero entrar lá, vou cavar, vou achar ele. Se eu entrar eu acho ele! Pede pra eles deixarem eu entrar, por favor! Ou me leva pra cidade que amanhã eu volto pra procurar”. Felipe explicou a ele que os bombeiros já estavam realizando esse trabalho, que não se arriscasse e tentasse manter a calma. Eu dirigia, mudo. Eugênio estava embriagado, mas nos deu nome completo e todas as características do irmão desaparecido, que era engenheiro da Vale. “Meu irmão mais querido, eu vou dar um tiro na cabeça” — disse o homem. Falei pro Felipe: “vamos deixar ele no teatro, no centro de apoio”. Eu não sabia o que dizer pro Eugênio. Talvez por que seria inútil, nós três ali dentro daquele carro sabíamos a verdade. A VALE é a segunda maior mineradora do mundo mas usou o método mais barato de contenção das suas barragens, o alteamento à montante — método esse que já havia causado o gravíssimo acidente de Mariana em 2016 mas não foi completamente eliminado— e matou o irmão de Eugênio e pelo menos mais três centenas de irmãos, filhas, mães, pais, pessoas. Negligência, injustiça, descaso. Crime.

Deixamos Eugênio aos cuidados da equipe especializada no teatro, quando a noite chegou. Fomos jantar em um restaurante na entrada da cidade, onde vimos mais jornalistas e alguns bombeiros, que nos relataram que a comunidade Parque da Cachoeira, a 6km de Brumadinho, havia sido atingida e pouca gente estava noticiando a destruição do lugar. Felipe e eu decidimos acordar bem cedo no dia seguinte e partir pra lá.

Domingo, 27 de Janeiro de 2019

Nós estávamos hospedados em um hostel muito próximo do rio, no centro de Brumadinho. O celular despertou às 5:30, mas nos levantamos às 6:00 da manhã. Ainda na cama, ouvi o barulho de uma sirene e a voz de alguém gritando em um megafone. Entendi apenas a palavra “evacuação!”. Vi pessoas apressadas e carros em alta velocidade nas estreitas ruas da cidade e falei para os companheiros de quarto: “aconteceu alguma coisa, estão mandando evacuar, parece que outra barragem rompeu. Vamos embora!”. Na rua, o carro que difundia a informação passou dizendo pelo alto falante: “Atenção, esta é uma ação preventiva. Vá para a parte alta da cidade”. Alarme falso mais uma vez, susto mais uma vez.

Decidimos esperar até ter alguma segurança para ir ao Parque da Cachoeira, enquanto fotografamos famílias inteiras nas ruas, refugiadas nos morros de Brumadinho. Passada aquela tensão, partimos rumo a comunidade, onde encontramos um cenário caótico. O “rio” formado pelos rejeitos, tinha uns 50 ou 70 metros de largura e alguns moradores locais chegaram junto conosco para ver o estrago. Aproximadamente 12 milhões de metros cúbicos de lama desceram da Mina Córrego do Feijão arrastando tudo e todos que estavam no caminho. Na rua São Matheus, que beirava o córrego, encontramos dez ou quinze casas transformadas em escombros afundados na lama. Carros, geladeira, antena parabólica, lajes inteiras e, provavelmente, pessoas. Um homem me disse: “Perdi um monte de amigo, cara. Essa Vale tem que tomar no cu. Não pode só a gente, que é pobre, viver se lascando assim, morrer desse jeito.” Alguns minutos depois vi ele, em cima da laje de uma casa, chorando sozinho.

Morador sobre escombros na comunidade Parque da Cachoeira. (Foto: Lucas Ninno)

Voltamos à Brumadinho e um terceiro integrante se juntou ao nosso grupo. André Soler é parte da equipe do SP Invisível, que conta histórias de pessoas em situação de rua em São Paulo, humanizando e tornando essa gente visível. A visibilidade de histórias é o ponto central, a medula, o “porquê” do trabalho de fotógrafos documentais. Se aprendemos algo durante essa cobertura, foi o nosso papel em transformar informação e números, tão frios, em imagens que possam causar empatia nos espectadores, mesmo que esse sentimento seja a dor. As manchetes dizem “90 mortos”, “300 desaparecidos”. Mas pessoas têm nome, histórias, sonhos, defeitos, amores, números não. Elas estão soterradas, números não. Elas morrem, números não.

Morador em frente aos rejeitos na comunidade Parque da Cachoeira (Foto: André Soler)

No hostel, a proprietária nos ofereceu um almoço dizendo que precisávamos comer para continuar trabalhando. Pensei como situações trágicas, por vezes, também mostram o valor da humanidade, ou nos fazem rever os nossos. Descansamos e à tarde partimos novamente para Parque da Cachoeira, já que o André era recém-chegado e não havia fotografado nada. Quase chegando, vimos um homem correndo com todas as forças, subindo a rua de terra que desembocava em uma área atingida. Era Alessandro, que depois de poucos minutos encontrei cavando a lama com as próprias mãos. “Meus amigos estão por aqui em algum lugar, eu vou encontrar eles, deve ter gente aqui.” Eu e Alessandro observamos juntos, dali mesmo, os bombeiros encontrando e removendo mais um corpo. Ao lado de onde estávamos vi uma casa atingida pela onda marrom. Pulei o muro e no interior havia uma parte intacta, enquanto outra metade foi completamente arrancada. Em um dos quartos, uma cena me surpreendeu. A lama, vinda de baixo, furou o chão e ergueu a cama feito um monstro de histórias infantis. André entrevistou uma senhora que, sorridente, dava graças a Deus pois sua casa, vizinha a essa onde eu estava, havia sido completamente destruída mas ninguém estava lá no momento. Com essas histórias voltamos a nosso hostel e saímos para jantar. O corpo estava cansado, a mente também.

Morador em frente aos rejeitos em Parque da Cachoeira (Foto: André Soler)

Segunda-feira, 28 de Janeiro de 2019

Decidimos deixar a cidade de Brumadinho e partir para a Vila Córrego do Feijão, onde se concentrou a base de operações dos bombeiros e policiais. Para lá os helicópteros levavam os corpos que eram retirados do mar de lama da Vale. Mas a estrada entre Brumadinho e Feijão estava bloqueada pelos rejeitos, então demos a volta por um atalho, em uma viagem que demorou por volta de 1:30h. A vila até então pacata, foi tomada por militares, helicópteros, bombeiros, resgatistas. Depois de certa negociação com policiais entramos na base de operações montada do lado de uma igreja. O nome: Nossa Senhora das Dores. As vezes penso que o realismo fantástico vira verdade no Brasil. Aeronaves chegavam e partiam a todo momento, trazendo e levando equipamentos e bombeiros cobertos de lama. Os corpos chegavam içados pelas aeronaves e eram removidos até um caminhão frigorífico. A operação em si me interessava menos do que a história das pessoas que estavam lá em baixo, ainda vivas. Eu tenho um irmão engenheiro e imaginei que poderia estar buscando ele como o Sr. Eugênio. Quanta dor, cara. Quanta covardia.

Bombeiros descansando depois de uma jornada de resgates, na base de operações ao lado da igreja Nossa Senhora das Dores. (Foto: Felipe Beltrame)
Resgate de do corpo de mais uma das vítimas do rompimento da barragem em Brumadinho. (Foto: Felipe Beltrame)

Me despedi às pressas do André e do Felipe, valentes companheiros, pois precisava conseguir internet para enviar as fotos à National Geographic, que publicou o material com um excelente texto do Gabriel Sá sobre os porquês da tragédia. Já bastante cansado, voltei para Belo Horizonte. Queria dormir e na manhã seguinte precisava entregar o carro e voltar a São Paulo. Jamais vou esquecer nossos três dias em Brumadinho. Mas gostaria mesmo é que esse crime nunca fosse esquecido. Se um dia eu tiver filhos, o que vou dizer? Que esse mundo é assim mesmo, cheio de injustiça e que nos cabe apenas assistir? Não pode e não deve ser assim. Mas lembro de Marielle e penso nos seus algozes que estão por aí, tomando uma cerveja gelada ou ganhando mais dinheiro com negócios sujos. Penso no Sr. Eugênio, como estará ele? Penso também no meu papel nisso tudo. Meu e dos companheiros que ali estavam. A fotografia é memória. E memória é história, conhecimento, aprendizado. No Chile há o Museo de La Memoria, que existe para que os crimes da ditadura não sejam esquecidos. Fotografar para lembrar. Lembrar para não repetir. Nunca mais. Como diria o fotógrafo Luís Poirot: “me va la vida en ello”.

Texto: Lucas Ninno

Fotos: André Soler, Felipe Beltrame e Lucas Ninno

Links para o material fotográfico completo:

Foto: Lucas Ninno
Lucas Ninno tem 28 anos, é natural de Cuiabá, e começou a fotografar 
profissionalmente em 2010, trabalhando nos impressos Diário de Cuiabá e Circuito 
Mato Grosso. Em 2013 mudou-se para o Chile, onde colaborou como fotojornalista na 
centenária agência de notícias UPI - United Press International. Suas fotografias 
já foram premiadas em concursos como o Pictures of The Year International - 
Latinoamérica nos anos de 2011 e 2013 e o Lente Latino 2011, onde figurou como 
único brasileiro participante da exposição resultante, ocorrida no Museo Nacional 
de Bellas Artes, em Santiago. Participou também de exposições nacionais como a 
Exposição Coletiva dos Fotógrafos do Centro-Oeste, no Museu Nacional em Brasília, 
nos anos de 2013 e 2016, e internacionais, como a China 16th International 
Photographic Art Exhibition, em 2016, na cidade de Zhengzhou. Com um estilo de 
]fotografia que transita entre o documental e o contemporâneo, Ninno tem a América 
Latina como residência, identidade e objeto de estudo.

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