Era uma tarde exaustiva, debaixo de um sol que beirava os 40° em pleno século XVIII. As vestimentas do senhor garimpeiro já estavam surradas e cheias de lama, por conta das escavações naquele córrego, que a população costumava chamar de ‘prainha’ por conta da areia branquinha e da água cristalina que se assemelhavam com a paisagem do mar.

Muito se falava de ouro naquela região. Havia boatos de que milhares de toneladas eram retiradas dia após dia e, por isso, dezenas de pessoas decidiram desbravar o Brasil desconhecido e pouco acessado, que ficava ali, localizado no meio da América Latina. Mas a verdade seja dita: a expectativa era maior que a realidade. E muitos escavavam a duras penas, em busca do brilho tão desejado, que não muito se encontrava.

Até que um simples garimpeiro, em mais um dia qualquer de trabalho, encontrou algo que mudou todo o rumo histórico daquele lugar. Não se sabe o nome, sua origem e muito menos sua idade. O que se conhece é que essa pessoa mudou o percurso dos astros, para brilhar o ponto central daquela terra. Tudo isso abençoado por um santo negro que tentava arrombar as portas da Igreja do Rosário e, assim, acolher os menos favorecidos.

Igreja de Nossa Senhora do Rosário e São Benedito – Foto Matheus Hidalgo

E como um dia abençoado por este santo de pele escura, ao mesmo tempo castigado pelo sol escaldante. Naquele exato momento, de algum dia e mês de hora incertos do século XVIII, nascia a história que influenciou gerações desde àquela época. Era gerada, então, a Lenda da Alavanca de Ouro de Cuiabá.

Memória que ainda permeia no imaginário cuiabano, que passa pela economia local até as rodas de conversa de ‘tchá cô bolo’, resultante da caça incessante ao ouro que respinga sobre o resgate da própria história. A mesma que explica muita coisa do que somos hoje, e que ainda nos movimenta a cultivar o que passou, para definir o que somos no futuro.

O peso da história deste ouro nunca encontrado, fez com que não só mineradores ou aventureiros fossem atrás dele. Há quem busque pela alavanca, sem almejar encontrá-la fisicamente. Mas sim para fortalecer a própria cultura, de uma forma que firme ainda mais as raízes de um povo, em busca de sua própria identidade através da memória.

E isso, só é possível contando a história. Passando-a de boca em boca, até que ela possa ganhar força e se transformar em lenda. O que deve ser feito desde o começo, quando os primeiros bandeirantes paulistas interagiram com os indígenas locais, para que riquezas fossem garantidas à coroa portuguesa.

A professora e pesquisadora, Dra. Silbene Corrêa Perassolo da Silva (com a análise das pesquisas do Pe. José Moura e do professor, Dr. Marcos Amaral), conta que os primeiros relatos sobre a alavanca, surgiram juntamente com a construção da Igreja do Rosário e São Benedito, em meados de 1722. Erguida pelas mãos de negros escravizados da época, o lugar religioso atravessou séculos com essa lenda em sua história, que fez com que diversas pessoas habitassem a região em busca do tal ouro.

Igreja São Benedito e do Rosário – Avenida da Prainha, em 1910

Mas o que poucos sabem é que, embora a fama seja grande, nenhum ouro foi encontrado neste pedaço de terra. E tão pouco, embaixo da igreja – como costumávamos aprender nas salas de aula, junto com os nossos professores. Uma vez que foi comprovada a existência de ouro somente onde se encontra o atual Hospital Ortopédico, não muito longe dali.

“Nunca foi embaixo da igreja, pois já fizeram escavações ali e nunca encontraram nada de ouro. Mas mesmo assim, houve uma corrida muito grande por essa riqueza, pois as pessoas acreditavam que era ali mas, não era”, explicou.

E para complementar as ‘verdades inconvenientes’ da história local, há relatos ainda que a quantidade não era abundante. Era bem diferente dos relatos do brilho ofuscante que saiam das águas do Córrego da Prainha, devido a grande quantidade de pedras douradas naquela região. Era tudo mentira. Mas uma mentira, digamos que do bem.

“A grande quantidade de ouro foi uma propaganda para as pessoas virem habitar aqui, porque Cuiabá sempre foi a última fronteira do Brasil. A partir daqui, você já estava em outros países. E se perdesse essa região, perdia-se boa parte do território português. E como aqui também foi fronteira de passagem para outras regiões, era interessante que as pessoas parassem e ficassem por aqui”, analisou a professora.

E com essa ‘mentirinha’, a cultura local foi se moldando e a então vila começou a criar um formato próprio com a formação do que é chamado de ‘arraial cuiabano’. E isso incluía um modelo de casa local, o sotaque, as crenças e os costumes que até hoje estão presentes nas ruas da cidade.

Com a grande quantidade de pessoas habitando o espaço, sendo a maioria movida pelo ouro, surgiram os primeiros conflitos sociais da época. Entre a irmandade de São Benedito e a de Nossa Senhora do Rosário, até a construção da capela do santo negro e, assim, fortalecer ainda mais a fé católica dos habitantes da cidade.

Crenças à parte, a verdade é que a lenda da alavanca, juntamente com a construção da igreja, ajudaram a transformar Cuiabá. As lembranças de um passado ainda presente na memória local, escorre no tempo e reflete no comportamento de quem é dessa cidade, que busca resgatar no seu íntimo o orgulho de ser o que é.

Desenho do século XIX – Igreja do Rosário em 1884 – Karl von den Steinen

E não obstante, tem orgulho das raízes formadas e fincadas nessa terra de lembranças. Mesmo que ainda haja dúvidas sobre a quantidade de ouro ou da existência da alavanca, o fato é que essas memórias seguem vivas nas rodas de conversa com ‘tchá cô bolo’ do povo local.

“O cuiabano gosta de lembrar as lendas e tradições, pois essa é uma forma de não apagar a memória conforme a cidade vai se transformando. E também, gosta de se apegar a estas coisas, porque teme estar perdendo a identidade. Então, quando se lembra da alavanca, ele quer dizer ‘olha, essa lenda existe, aconteceu’, pois muita gente acreditou e morreu atrás dessa história. E tudo aconteceu aqui, nessa cidade”, refletiu a professora Silbene.

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Simone também é Sika. Jornalista e artista visual (não necessariamente nessa ordem). Ex-cinéfila que gosta de estudar música e seus personagens, assim como outras vertentes da arte. Feminista, mistura de asiática com paraguaia e cearense, natural de Rondonópolis (MT). Mora em São Paulo, mas leva Cuiabá sempre no coração e no 'djeito'.

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