Por Tiago D. Oliveira*

Estava viajando neste finalzinho de 2016 e ao chegar a casa me deparei com um embrulho assinado pelo Marcelo Labes, uma das boas surpresas que felizmente tive neste ano. Alguém que você só precisa conversar uma vez para querer ser amigo, um olhar que carrega a verdade. Dono de palavras que esperamos há tempos escutar. A leitura do livro foi tão prazerosa que conseguiu afastar um pouco o cansaço que me definia nestes últimos meses para que fosse possível escrever algumas notas sobre esta viagem, que por alguns momentos tive a nítida sensação de também ser minha.

porque um poeta lendo já são poemas sendo escritos

O verso acima é apenas uma parte da dedicatória que veio no Trapaça, do Marcelo, um leitor de sensibilidades. Diante de tudo que já foi dito na literatura sobre o fazer poético, talvez seja uma direção oportuna capaz de desenhar, um tanto que seja, a presença da sua poesia construindo, ainda no vácuo do que gostamos, mas não o sabemos, o caminho de um bom poeta. Depois de Falações (2008), Porque sim não é resposta (2015) e O Filho da Empregada (2016), Marcelo lança Trapaça (2016), uma viagem sobre o alcance das palavras.

capa
Livro Trapaça, de Marcelo Labes

Palavra aqui é campo de amadurecimento sobre um chão de afetos. Em “O prazer do texto”, Roland Barthes aponta – eu amo o texto porque ele é para mim esse espaço raro da linguagem. Marcelo conhece bem a importância deste espaço. Barthes continua – Todos os significantes estão lá e cada um deles acerta na mosca; o autor (o leitor) parece dizer-lhes: amo a vocês todos (palavras, giros, frases, adjetivos, rupturas… os signos e as miragens de objetos que representam). É este amor que motiva o labor da escrita. O mesmo que fica claro em trapaça. Labes costura os dias com a linha tênue dos passantes, a tessitura das horas é fundida no acúmulo de fios brancos, a cabeça aprende sobre o quedar e o levantar. Escrever é também viver.

No poema “Ofício”:

Que os poemas nos/ cobrem menos,/ andamos tão atarefados.

A poesia, entranhada na velocidade que acomete o homem moderno, passa a respirar em um só compasso com o caminhante. O poema se torna um campo de reflexões que possibilita o pensamento progressivo, já que a releitura é fruto também de um dia após o outro. Em “Despoema” este campo direciona a reflexão também para a conjunção “se”, que coloca em questão a veracidade/condição dos poemas.

Se os poemas ao menos

A estrofe que antecede o fim inicia o fechamento com a palavra “então”, sintetizando o que também pode ser apontada como função do poema – a filosofia empenhada tem o papel de dizer o que todos sentem através de palavras simples que só contribuem para a beleza das constatações. Seriam estas, também, um tipo de “despoema”?

Então os poemas /seriam sinceros/ [e já não haveria / mais que escrevê-los]

Neste momento a confluência de caminhos embeleza mais o híbrido proposto pelo autor, pois se os poemas não são sinceros há uma ficcionalização deles – o viver/escrever é nutrido por uma força que é natural do homem, o sentir/criar. É deste ponto que poderia existir a força de oposição, mas que na poesia de Labes cria uma atmosfera que revela e ao mesmo tempo amplia as interpretações. Pois escrevemos também para não dizer. O não dizer do poeta carrega caminhos em sua ambiguidade calçada nas observações dentro e fora de si.

Os poemas que trabalham a metalinguagem apresentam também este duplo diante do poeta: aquele que está dentro e fora do poema, e a sua significação diante do mundo.

o poema / pra existir / necessita / desse / silêncio (VARIAÇÃO #01)

Digo escrevendo/ poemas e me / pergunto /: pra quê? (NO ENTANTO)

Por que poemas?, / volta e meia me perguntam. (OFÍCIO)

reexistir no / extinto (ÀS 3 DA MANHÃ)

Qual é a finalidade de escrever poemas em um contexto social tão depreciativo e alheio à prática da leitura? Quem leria estes poemas? O que fariam com estes versos? Qual é o papel da poesia aqui, agora? No prefácio do seu livro, O Retrato de Dorian Gray, Oscar Wilde escreve que a arte é inútil, já que possui apenas o caráter contemplativo. Esta afirmação é colocada em determinado contexto, mas que pode ser utilizada aqui para pensarmos sobre esta palavra que espreita, ameaça e define. A questão não é somente sobre a inutilidade do objeto artístico em si, mas sobre o seu papel como potencializador de sentidos – o maior lugar de silêncio, cegueira e dor. A poesia abre as janelas para que o ar e a luz entrem novamente. Não é sobre a inutilidade da arte, mas sobre a significação da vida diante do peso real da soma dos dias. Este duplo que vive dentro e fora do poema, que sente e cria, é o sujeito que ora se autoficcionaliza, ora expõe suas veias. Assim Marcelo Labes apresenta o Trapaça, esta via que possibilita uma didática do viver. No poema Repartição:

eu precisava trabalhar

O real sendo invadido por este mecanismo de defesa capaz de agir contra o que atropela e mata a pétala, o canto. O trabalho, a obrigação, tão necessários, mas ao mesmo tempo se tornam um peso que só cresce durante os anos e tomam outros espaços dentro do indivíduo. Mas o poema liberta algumas amarras.

foi quando surgiu / o poema / e a poesia / do dia a dia / espalhou palavras / por todos os lados.

Trapaça também ensina a lidar com as questões que implicam a passagem do tempo, perda, ausência.

de repente a gente lembra de algum dia dos 80 / (na memória / umas rasuras / tantas tardes / tantas ruas / silhuetas / quase sempre / silhuetas) (MCGYVER)

o mundo só / era grande / quando a gente / se aventurava / a tomar banho / de rio e tu / me levavas. / “não conta nada pra mãe” (VINÍCIUS)

alfaiate foi / meu primeiro / desafio / e minha primeira / saudade (ALFAIATE)

A saudade é tema recorrente na poesia de Labes, que traz nos títulos dos poemas a direção dela e de um tempo (DONA MIRANDA, 1994, 1999-2001, OITENTA, NOVENTA, DOIS MIL E CINQUENTA, 02/11), assim como a presença recorrente da figura do pai, Alfredo Labes, um livro dentro do livro.

[certeza passa a ser / palavra ignorada: o ontem não volta / o antes de ontem / também não volta / restam somente / umas lembranças / redesenhadas] (SEO ALFREDO)

não poderei nunca / ser pai, / eu tão órfão de / mim mesmo. (1994)

se meu pai / tivesse mostrado o / manual de instruções (MANUAL DE INSTRUÇÕES)

Novamente o poema como um campo para percepções deste sujeito fragmentado que escreve sob batuta do tempo presente e passado. Uma ferramenta que coloca os espaços soltos na diluição dada ao caminhar. A exposição/grafia das peças soltas possibilita visões diferentes e modulações também distintas do acolhimento. O Trapaça se coloca para mim como um instrumento de beleza e eficácia para que pensemos também nisso de andar no alto / a gente cai de forma / abrupta, no que apostamos o valor da vida. A rotina, o engessamento do aprendizado e da sensibilidade, o homem escolhe os caminhos do vazio e nunca vai ter a certeza / do que é sonho / do que é luta / do que é nuvem de / fumaça / e do que parece teoria / e é trapaça. A palavra trapaça, no último poema do livro, Academia, carrega uma alegoria capaz de definir não só as ilusões perigosas da vaidade encontradas no meio acadêmico, mas que se espraiam para todas as ruas e vielas de qualquer vida. Que neste novo ano tornemo-nos todos um tanto Trapassa também.

mqdefault

Marcelo Labes tem 32 anos e é natural de Blumenau-SC. Autor de Falações (EdiFurb, 2008), Porque sim não é resposta (Hemisfério Sul, 2015), O Filho da Empregada (Hemisfério Sul, 2016) e Trapaça (Oito e Meio, 2016). Poeta, prefere o simples ao hermético. Escritor, prefere ainda a poesia à prosa.

Contatos:

facebook

E-mail: labesmar@hotmail.com

Entre em contato para pedir o livro.

*Tiago D. Oliveira, de Salvador-BA, professor e pesquisador, estudou letras na 
Universidade Federal da Bahia (UFBA) e na Universidade Nova de Lisboa (UNL). 
Tem poemas publicados em blogs, portais, revistas e jornais especializados 
no Brasil e em Portugal.Publicou o livro de poesias, Distraído, em 2014 
e um novo trabalho, Debaixo do vazio, em 2016. 

Blog 

E-mail: tolidiasum@gmail.com

Deixe um comentário