Por Leonardo Roberto*

Escrever sobre Vila Bela é difícil. A escrita, por si só, é desafiadora, já que cada palavra passa pelo julgamento de quem escreve, que não tarda em pensar no julgamento de terceiros, alheios à realidade presente no seu imaginário, portanto, incapazes de tocar os signos que povoam os pensamentos e, por algum motivo, precisam ir para o papel para que se materializem.

Foto Vinícius Appolari

O grau de dificuldade aumenta quando se quer falar de um tema de domínio público, uma cidade que todos podem (e devem) conhecer e ter suas próprias percepções. O caso de Vila Bela da Santíssima Trindade mostra-se ainda mais desafiador, diante de sua riquíssima história e dos sentimentos envolvidos ao participar da Festa do Congo, ao ponto de me obrigar a tomar longas pausas para reler cada trecho e ponderar se estou sendo fiel à marcante experiência gentilmente proporcionada a mim pelo povo Vilabelense.

Foto Vinícius Appolari

Não conseguiria descrever a Festa do Congo de maneira distante, impessoal, por acreditar que essa celebração centenária não foi cultivada por tanto tempo, com tanto empenho dos moradores, para que fosse contemplada por observadores passivos. Uma vez que se tem a sorte de estar em Vila Bela durante a festança, você percebe que, inevitavelmente, participa dela.

Foto Vinícius Appolari

O caminho de Cuiabá para Vila Bela, por si só, é uma experiência valiosa. Ao longo das 6 horas de viagem contemplando a imensidão do cerrado e as vastas terras mato-grossenses (Na mão de alguns pouco proprietários).

Foto Vinícius Appolari

A paisagem começa a mudar de figura conforme nos aproximamos das águas mais distantes do Amazonas, levadas pelo Rio Guaporé e seus afluentes. Descobre-se a riqueza da fauna e flora de maneira, ora prazerosa, ora entristecedora. A vegetação amazônica surge verde e imponente no horizonte, enquanto no acostamento da estrada vemos inúmeras carcaças de animais atropelados. Esses sentimentos conflitantes nos apresentam à cidade, ilustrando a riqueza e pluralidade da região frequentemente ameaçadas. Em algum momento da viagem é possível ver, na mesma placa, a indicação para retornar a Cuiabá e os caminhos para Bolívia e Vila Bela da Santíssima Trindade.

Foto Vinícius Appolari

Vila Bela foi a primeira capital do estado e a primeira cidade planejada do Brasil e tinha uma posição estratégica na disputa de território entre portugueses e espanhóis. Foram projetadas mais de 300 casas para a cidade, além de uma igreja (que tem em suas ruínas o principal cartão postal da cidade), o Palácio dos Governadores e apresentações de ópera. Para um observador desatento, Vila Bela pode parecer uma cidade interiorana genérica, impressão que tende a ser mudada em pouco tempo de estadia.

Foto Vinícius Appolari

Além de sua posição privilegiada, que presenteia a cidade com belíssimas paisagens naturais, desde os buritizais, morada de casais de araras, na beira do Guaporé, até as inúmeras cachoeiras e cânions, a cidade cultiva representações performáticas que asseguram sua unicidade. A festança dura 12 dias, tendo como ponto alto os dias de dança do Congo e o Chorado, apresentados em dias de festa de São Benedito, o “divino santo” ou “santos de todos”.

Foto Vinícius Silva Appolari

A dança do Congo, traz representações artísticas do confronto entre os reinos de Congo e Bamba, representado em forma de teatro e a própria dança, quando os “soldados” dançantes marcham por mais de 30km em cada um dos dias de dança. Debaixo do sol árido ou no frio da manhã (a dança começa as 5h) os soldados cantam e tocam instrumentos enquanto percorrem as ruas da cidade, buscando e deixando os festeiros em suas casas. As pausas são feitas para vigorosas refeições oferecidas pela Rainha do Congo à toda comunidade, indiscriminadamente.

Foto Vinícius Silva Appolari

A dança do Chorado remonta aos tempos de escravidão, procurando representar a relação entre os senhores e as escravas mulheres. Jéssica, filha de Vila Bela, me explicou que a dança simula a tentativa das mulheres de seduzir e embebedar os seus senhores com o Canjinjin (a bebida local) para que houvesse um melhor tratamento dos senhores com os maridos. A lamúria nos cantos dá o nome à dança.

Foto Vinícius Appolari

A tristeza nas performances do chorado contrasta com os alegres filhos de Vila Bela. Desde a primeira volta pela praça da cidade, tive a oportunidade de ter boas e marcantes conversas. Sentado na frente do hotel, conheci “Macalé”, com quem partilhei preguiçosos e preciosos goles de canjinjin e histórias. Herpídio Francisco da Silva, o “Macalé”, foi o primeiro a me contar que quase todo mundo em Vila Bela tem apelido. Ele mesmo é chamado assim pela semelhança com o ex-jogador do Cruzeiro.

Foto Vinícius Appolari

Com ele, descobri que não me hospedava no hotel Guaporé, mas sim na casa de “Piloto”, o que traduz bem melhor o que foi experiência da estadia. Poucos minutos de conversa depois, eu já estava na sala da casa de “Macalé”, enquanto me presenteava com uma garrafa de licor de figo e me mostrava um almanaque dos anos 40, que tinha guardado em sua casa. O documento contava um trecho sobre a história da cidade, se referindo a ela como “Sentinela da Pátria” e “Capital do Deserto Verde” no título. “Macalé” me mostrou uma bela foto de uma dançaria e me explicou que ela era Lídia Leite, a melhor dançarina que a festança já viu, sua falecida esposa. Tive o prazer de encontrar “Macalé” várias vezes ao dia durante as festas, assim como outros amigos, como “Coró”, “Azulão”, “Thunder” e outros com os quais dividi outros goles de canjinjin.

Foto Vinícius Silva Appolari

Reginaldo Aparecido Geraldes de Paula, o “Coró”, foi outro Vilabelense que compartilhou comigo histórias da cidade. Me contou, à sua maneira, a história da Rainha Tereza, um símbolo da riquíssima memória da cidade. Quando Vila Bela ainda se chamava cidade do Mato Grosso, Tereza líderou o Quilombo do Piolho (Piolho era seu marido) na resistência contra os brancos. Segundo Maria de Lourdes bandeira, esse quilombo chegou a abrigar mais de cem escravos fugitivos, negros e índios.  Dia 25 de Julho é celebrado o Dia Nacional de Tereza de Benguela e da Mulher Negra em sua homenagem. Para “Coró”, segundo ele mesmo, é um orgulho ter tido uma rainha negra e mulher como líder, diante das adversidades da época. Foi ele quem me apresentou a uma das referências da cidade quando se procura entender a história da comunidade dos negros de Vila Bela, Zeferino Neto Profeta da Cruz ou “Didi”; também por semelhança física a outro jogador de futebol, ex-Botafogo.

Foto Vinícius Appolari

Profeta me recebeu em sua casa, onde pude experimentar um saboroso caldo de piranha e contemplar suas histórias. Como seu pai havia recebido uma boa educação dos Jesuítas, Zeferino seguiu o mesmo caminho e se tornou um homem estudado. Me contou sua perspectiva da história do Brasil e da cidade, agregando elementos que eu nunca encontraria em uma pesquisa acadêmica. Me explicou que é difícil saber a história do negro, já que a barbaridade do tratamento no período da escravidão impedia o registro de narrativas. Com um notável conhecimento da história do país, repassou as histórias dos antigos, mantidas pela tradição oral, sobre as condições subumanas dos navios negreiros. “Não se conhecia luz e eletricidade, mas já se sabia da pólvora”, me contou. São horas de registro em uma perspectiva única de uma história tão rica que é a de Vila Bela.

Foto Vinícius Silva Appolari

Pudesse eu, relataria todos as boas conversas que tive. Como quando tentei comprar um café no bar de “Thunder” e não consegui, porque lá “não se vende café para amigo” e fui convidado a entrar e tomar um café, passado na hora, na cozinha de sua casa. Ou até mesmo quando conversei com o “Capeta” e ele me disse: “você é gente boa”.

Foto Vinícius Appolari

A comunidade Vilabelense é constituída, em sua grande maioria, por negros. Durante o ciclo da mineração, escravos foram levados a cidade e, com o declínio deste mesmo ciclo, foram deixados para trás por seus senhores que, no começo do século 19, seguiam os cofres da Coroa e se estabeleceram em Cuiabá, que crescia em um ritmo maior. Os brancos abandonaram a cidade que construíram e a partir de então, ela se manteve com um forte senso comunitário, em uma sociedade constituída por descendentes de escravos africanos, de diferentes origens. Foi a força da comunidade – como os mutirões de construção e manutenção das casas, chamados de “Muxirum” por Zeferino Profeta – que fez com que o povo resistisse, formando as bases da sociedade que vemos hoje.

Foto Vinícius Appolari

Minhas leituras prévias, baseadas no trabalho das antropólogas Maria de Lourdes Bandeira e Maria Fátima Machado, foram importantes para conhecer parte do processo de formação da comunidade Vilabelense, mas apenas a experiência de estar lá traduz sua história de maneira adequada. São inúmeros eventos históricos, pessoas e personagens que merecem nota, mas escrever sobre Vila Bela é difícil.

Foto Vinícius Appolari

As imagens trazidas aqui, pelo olhar do fotógrafo Vinicius Appolari, procuram mostrar o que seria impossível de ser representado verbalmente.

*Leonardo Roberto é estudante de comunicação

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