Por Maria Bárbara Thame Guimarães*

Cuiabá completará 300 anos em breve (1719-2019) e tudo que se ouve falar é na construção de novas obras, quase exclusivamente deslocadas da realidade. O cenário espetaculoso montado na recém-inaugurada orla do porto mimetiza de maneira simplista fachadas de edifícios antigos: a nova orla consiste em um árido calçadão pavimentado, que arde sob as pequenas sombras das palmeiras que lutam para sobreviver no solo impermeabilizado. O calçamento, diga-se de passagem, já apresenta peças soltas e outras patologias. O mercado do rio, cuja praça sempre foi seca, sem árvores, também recebeu palmeiras. O bairro do Porto é contemporâneo ao centro, porém não é protegido por tombamento a nível nacional (pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional – IPHAN), apenas em nível estadual. A estratégia adotada para a revitalização da região é conhecida: equipamentos públicos (calçadão e estacionamento) e exploração comercial de único tipo: bares que atendem a uma porção pequena da população. Os moradores do bairro continuam invisíveis.

Antiga Gráfica Pepe, edifício vazio, Rua Sete de Setembro, Centro – Foto: Maria Bárbara Thame Guimarães

O centro histórico permanece explorado comercialmente de maneira precária e segue como uma pedra no sapato do bem-estar da cidade. Com o fim do expediente comercial, as ruas se tornam vazias e hostis a quem necessita ou deseja atravessá-las. O centro morre todas as noites.

Igreja Senhor dos Passos, Rua Sete de Setembro, Centro – Foto: Maria Bárbara Thame Guimarães

A localização privilegiada é um dos maiores potenciais do centro, para diversos tipos de uso: residencial, comercial, e serviços. A mistura de usos em um mesmo local o mantém movimentado durante todo o dia, diminuindo a insegurança. Para tal, é necessário adequar os edifícios aos novos usos. Aí que o problema começa.

A área mais antiga do centro de Cuiabá é tombada pelo IPHAN. As edificações dentro do perímetro do tombamento devem obedecer normativas específicas do órgão. Resumidamente, o proprietário de um imóvel na região tombada só pode fazer obras de manutenção e reformas com a autorização do IPHAN, e obedecendo à normativa.

Casa Art Déco vazia, Rua Joaquim Murtinho, centro. Foto: Maria Bárbara Thame Guimarães

Na teoria, as obras em edifícios tombados devem ser projetadas, executadas e acompanhadas por profissionais qualificados para atuar em bens de valor patrimonial. Infelizmente, o IPHAN, que é vinculado ao ministério da Cultura, não possui recursos para oferecer o serviço destes profissionais para toda a população residente no centro histórico. Os moradores, em geral, tampouco têm condições de arcar com os custos de  projetos de arquitetura e engenharia. As condições das habitações em edifícios antigos, geralmente, são precárias: telhados em mau estado, umidade nas paredes de terra, e esquadrias envelhecidas. É esperado que os moradores busquem soluções por conta própria.

Quando se fala de intervenções em patrimônio, há uma tendência de se propor que os edifícios recebam equipamentos culturais. Na prática, raramente há garantia de possibilidade de gestão (recursos humanos e financeiros). Esta tendência de uso institucional cultural é um tanto perigosa, pois não abre possibilidades para outros tipos de uso dos edifícios, como comércio e residências. Os casarões acabam se tornando museus de si mesmos. Atualmente, o Museu Histórico de Mato Grosso está fechado, por falta de recursos para manutenção. O Museu de Imagem e Som (MISC) está fechado para reforma. Há mais museus fora de uso, que requerem uma pesquisa mais aprofundada.

A gestão municipal de Cuiabá também não colabora: mesmo com uma secretaria específica, a série de obras dos 300 anos não chega a fazer jus ao legado que pretende representar. De praça em praça, as intervenções pavorosas passam por cima da história da capital.

A mais recente inauguração foi do ponto de ônibus, oficialmente “Estação Alencastro”, na praça homônima. Após meses fechada por tapumes que não deixavam sequer uma estreita calçada para os numerosos pedestres, eis que a praça foi reinaugurada. O piso segue a mesma lógica da orla do porto: peças cerâmicas, que claramente não devem ser colocadas em ambiente de tráfego intenso, já estão soltando. Bustos de governadores colocados ao longo das décadas em diversos cantos da praça foram realinhados em um eixo central: um descaso com o contexto das homenagens que representam. A praça parece ter ainda menos árvores do que antes. A cereja do bolo é a referida estação de ônibus. Uma alta caixa de concreto, naturalmente pintada de verde, pretende abrigar os usuários de transporte coletivo, e tem diversos equipamentos de ar condicionado, é claro. A única parte interessante são os painéis de energia solar que alimentam o equipamento, porém pouquíssimo se fala do potencial energético da cidade. Por fim, a construção quebra completamente a escala da praça de quase cinquenta anos: é um obstáculo visual de todos os lados. Os problemas projetuais, de acessibilidade, e de patologias construtivas já podem ser observados no local e em reportagens online.

O mesmo prefeito também adota uma política higienista para “resolver” a questão das pessoas em situação de rua (geralmente dependentes químicos) especialmente no caso das que viviam na Ilha da Banana. O local, no projeto do VLT, abrigaria uma estação. No entanto, com a situação atual das obras de “mobilidade”, a ação é inútil.  Ao invés de assistência social adequada para tratar as pessoas, a decisão foi demolir uma série de edificações ao lado da igreja mais conhecida da cidade, como forma de impedir que as pessoas se abrigassem ali. Ao contrário do desejado pelo prefeito e sua equipe, aquelas pessoas não pararam simplesmente de existir: agora abrigam-se do outro lado da rua, no Morro da Luz, e a insegurança permanece. Ou seja: o tecido urbano foi danificado e nenhum problema foi resolvido. Os escombros das demolições permanecem no local.

Chafariz da Praça Ipiranga – Foto Pedro Thame

O chafariz da Praça Ipiranga também não resistiu aos esforços “modernizadores” da prefeitura. Com uma pá carregadeira, o chafariz de mais de 100 anos foi demolido. Do projeto arquitetônico novo, ninguém sabe, mas o motivo usado pelo secretário de Meio Ambiente foi: o chafariz era usado como banheiro pelos moradores de rua e acumulava água (naturalmente). O coreto metálico centenário na mesma praça que se cuide.

A escultura memorial da chacina do Beco do Candeeiro também está em perigo. O largo em frente ao Morro da Luz, que também sofre obras duvidosas da prefeitura, teve sua estátua removida. A informação oficial é que o monumento será levado para o Museu Dom Aquino, até o término das obras.

Vista da Av. do CPA – Foto Maria Bárbara Thame Guimarães

O descaso com o centro histórico é com a memória, com o passado, a cultura e identidade de uma população. As histórias abrigadas na Casa de Bem-Bem ruíram com a “restauração” da Prefeitura. Destelhada, a casa veio ao chão após o período de chuvas. Arquiteturas de terra, naturalmente, vem a baixo se não foram protegidas das chuvas. Novamente, ninguém sabe, ninguém viu. Nem a empresa contratada, nem o responsável técnico, nem a prefeitura, nem a Secretaria Estadual de Cultura foram responsabilizados pelo crime. O dano, no entanto, está feito e é irreversível.

A população elegeu a atual gestão com a esperança de que os olhos seriam voltados para os problemas da cidade e enfim resolvidos, afinal, Emanuel Pinheiro é cuiabano e de família tradicional. Então, se os próprios filhos da cidade não cuidarão dela, quem vai? Aparentemente as decisões não são técnicas, tomadas por profissionais da área: são políticas, baseadas no gosto e entendimento duvidoso dos que tem poder de decisão.

Ruínas do Casarão de Bem-Bem, Rua Barão de Melgaço. Foto Maria Bárbara Thame Guimarães

O cenário das fachadas dos casarões antigos na nova orla do porto em contraste com os escombros da Casa de Bem-Bem dizem muito. É como uma fantasia, um sonho, uma projeção do que era Cuiabá, para nos iludir de que somos mais do que essas ruínas. É como se não tivéssemos aprendido com os erros da Copa do Mundo, de obras faraônicas sem propósito algum, que deixaram cicatrizes abertas por toda a extensão da outrora Cidade Verde.

Vista da Ponte Julio Muller, Mirante da orla do Porto. Foto Maria Bárbara Thame Guimarães

As perguntas que ficam são: por que não valorizar o que existe de peculiar na nossa história? Queremos reproduzir modelos que não condizem com a realidade da cidade? Ou queremos adequá-la para alcançar seu potencial, sua singularidade?

Naquelas ruínas, a memória afetiva, o passado, a história de Cuiabá. O que reserva o futuro, só o presente pode dizer.

*Maria Bárbara Thame Guimarães é graduanda em Arquitetura e Urbanismo pela UFMT. 
Dentro do curso, se identificou com as áreas de história, teoria e patrimônio. 
É também idealizadora de projeto experimental de fotografia com diferentes 
olhares sobre o corpo feminino, o projeto Vênus.

**Colaborou Marianna Marimon

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