Estamos em pleno mar. No horizonte claro do oceano o recorte da sombra projetada.  O duplo. Figura bipartida. Dois e um. Antagônicos e complementares.
No som dos búzios ecoa o canto do pirata perdido em algum lugar entre o céu e o mar.
A sombra oscila. Balança no ritmo das ondas. Fluxo e refluxo. O encantamento da nave que atravessa o improvável reino mítico das águas profundas.
A ordem emana do caos. A palavra é ordem.
A ordem é dramática. Contesta. Questiona. Tripulação a bordo. O capitão atento. Evita o motim. Ordena a cabotagem. A nave voa. Desliza serpente marítima na correnteza. Corre a flor dos mares. Ao sabor dos ventos.
Piratas são selvagens, tostados pelo sol dos quatro mundos. Ordenam mortes e execuções.
O pirata canta. Seu corpo vibra um som oceânico. Seu cantar ressoa reverberando eras. Quimeras. Trágicas trajetórias em busca de tesouros submersos em escuras cavernas da memória.
La nave vá!
Flutua entre abismos, nevoeiros e temporais.
Inevitável fim que os aguarda.
Nas zonas abissais do pensamento repousam lendários personagens de histórias imortais.
La nave vá… deixando atrás de si caminhos abertos nos pélagos profundos, onde marinheiros helenos atravessam o mar que Ulisses cortou. E vão seguindo em noite clara a rota das estrelas, sonhando com riquezas esquecidas no coração das areias molhadas. Aportando entre rochedos escuros onde a morte os aguarda nas lágrimas de uma sereia.
Chegamos enfim ao fim do mar. Na praia só um cabo morto e uns restos de vela falam dos sonhos, de longe, das horas do sul. De onde podemos ouvir na voz das ondas a voz dos piratas do mar.

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