A morte é traiçoeira, fisga o peixe, frustra o fluxo, interrompe a linha, pulveriza a pedra, joga às traças o poeta, mas não a poesia!

A poesia é o que fica quando morre um poeta. Não importa o seu tempo de vida, não importa a idade. O que fica são os versos derramados na linha do tempo. Nas horizontais e nas verticais, vórtice frenético, mergulha nas entrelinhas e refaz o percurso que doura a palavra. Assim vamos, assim morremos, e só o que importa é o verso que cristaliza a experiência de viver.

Conheci os versos de Pio Vargas tardiamente (?), será? Confabulando com o amigo-poeta Glauber Lauria, colaborador do Cidadão Cultura (veja aqui), entre outras andanças, que tascou a pergunta: Eduardo, você conhece o fulano, poeta de Goiás, de Iporá? Respondi que não, nunca ouvi falar e muito menos li qualquer coisa dele! A conversa ficou registrada no Facebook: link: despertador de memórias. Fui lá e dei uma espiada. Quem seria Pio Vargas?

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Fui pesquisar e achei seus restos imortais. Alguns como Paulo Leminski tiveram o privilégio de lê-lo ainda vivo (faz diferença?). Talvez pelo fato de que ficou uma sensação de que poderíamos termos nos conhecido naqueles benditos anos de 1980, mas aí é o imponderável. Mudemos de assunto.

Pio Vargas era saudado como um poeta excepcional, com futuro certo como um dos grandes de sua geração. Paulo Leminski, assim opinou: “Pio Vargas tem um ‘eu’ coletivo tão forte que chego a vê-lo muitos. De sua poesia consigo extrair a certeza do que digo, insistente: há uma geração recente que usa e abusa da modernidade, fazendo dela o principal elemento a interferir na criação. Este Pio Vargas me trouxe uma poesia fascinante que não se atrela a falsos modelos de invenção, mas flutua, inventiva, com os mais amplos e possíveis signos do fazer poético”.

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Em minhas pesquisas achei essa crônica deliciosa na revista Bula, escrita por Edival Lourenço, que foi amigo do poeta na pequena cidade de Iporá. Vale a pena ler a crônica e saber mais sobre esse poeta que morreu cedo demais, morreu de overdose  de cocaína. Morreu no ano em que completaria 27 anos (1964-1991), a idade mítica dos 27 anos, mesma idade da morte de Jim Morrison, Jimi Hendrix, Janis Joplin, Brian Jones, Kurt Cobain, Basquiat, Amy Whinehouse, e vários outros artistas, formando o famoso e misterioso Clube dos 27.

Poesia precoce? Poeta maldito? Uma espécie de Rimbaud do Centro-Oeste brasileiro? São ilações inevitáveis, mas apenas isso. Bobagens, talvez. Mas não importa. Importam e muito seus versos e sua pequena história carregada de grandezas. Apesar do silêncio que ele impõe, claro, pelo incômodo que provoca. Estranhamente, ou nem tanto assim, pois conhecemos em demasia a maneira que o establishment opera. Reduzindo a pó seus dessemelhantes, seus desabonadores e é isso que ele sempre fez: provocou as estruturas vigentes e conservadoras da criação poética, os bons moços que frequentam as academias de letras, universidades e afins.

Ele entra de sola com a poesia, pisando firme por terrenos à margem do sistema de coisas:

Des­per­tá­cu­lo

Es­tou pron­to
pa­ra a guer­ra que en­con­tro
quan­do acor­do:

bo­tei vi­gia nos sen­ti­dos
e ilu­di com com­pri­mi­dos
ou­tros se­res a meu bor­do.
Aban­do­nei o ví­cio
de es­tar sem­pre
a so­le­trar ru­í­nas,
dei li­ber­da­de a meus de­ten­tos
mi­nha pres­sa di­lu­iu nos pas­sos len­tos
e ras­guei
meu ca­len­dá­rio de ro­ti­nas.

In­ver­ti a or­dem.

Já não saio por aí
a de­vo­rar com­pro­mis­sos,
to­mei pos­se no go­ver­no de mi mes­mo
e der­ro­tei os meus omis­sos.

Ven­ci a ba­ta­lhas
de ter que es­tar sem­pre por per­to,
às ve­zes voo pa­ra den­tro
do meu so­nho a céu aber­to.

Es­tou pron­to:

eu já con­cor­do
com a guer­ra que en­con­tro
quan­do acor­do.

Sua consciência beira a transcendência. Sai de si para ver o que está lá fora e afirma sua liberdade com a prepotência do guerreiro que de armas carrega o verso. Fustiga a ordem estabelecida. Subverte, decreta sua libertação.

Vale a pena conhecer o poeta Pio Vargas.

3 Comentários

  1. Quando cheguei em Goiânia conheci essa figura..realmente genial, fiz um material com textos dele…me lembrava uma mistura de Sodrézin com Bella e Dudu..:-)

  2. 5 de junho de 2018..brincadeira..não tinha visto sua pergunta..mas nunca é tarde para resposta…rererr…..tava procurando aki..tem algumas coisas..do Pio Vargas.. tenho q formatar e enviar.

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