A potência da sua narrativa sobre a sua própria vida sai do alto falante e me atinge em cheio. Com a sua fala, me esvazio de mim mesma e me encho dela, com as suas palavras, com o seu olhar, com a sua vivência. Enxergo ela, enxergo o outro, por que ela rompe com a invisibilidade e se mostra como é. E assim faz com que todos possamos sentir a sua dor, a sua luta, a sua essência, resistência. Sentimos o seu ser e estar no mundo por inteiro. Eu a enxergo e vou ao seu encontro. No final, peço um abraço e agradeço imensamente por me encher com sentidos que não me pertencem. Novamente digo, aqui não me cabe fala. Aqui cabe, apenas, ouvir. Ouvir sem silenciar, ouvir para entender e ouvir para compartilhar. Este ouvido atento revela pertencimentos, descobertas, respeito, empatia.

Com a palavra, com todas as suas palavras, relato aqui o depoimento de toda essa potência que é a Mc Linn da Quebrada, no Seminário Políticas Culturais do SESC, na mesa sobre “Transgener(al)idades:  arte, vida e resistência”.

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“Eu, como mais uma dessas bixas travestis, por muito tempo fui obscena e acho que me mantenho obscena mas agora dentro da cena, o ser obsceno acho que era algo relacionado ao espaço reservado a nós.

Melhor começar a pensar a partir do meu corpo, eu sempre me percebi proibida a mim mesma, eu me percebia tendo meu corpo proibido a mim. Os meus desejos, os meus afetos, a minha estética, tudo isso eu sentia que de uma certa forma me era proibido. Eu não tinha possibilidade de experimentar sobre o meu corpo sem pensar que aquilo fosse erro, culpa, ou pecado de alguma forma. Mas a partir do momento em que tomei o bastião de liberdade do meu corpo, passei a experimentar sobre mim mesma e isso por perceber que poderiam existir outras possibilidades de eu ocupar o meu próprio corpo.

Foi a partir deste momento e com outras pessoas que eram as travestis com as quais passei a me relacionar, as bixas que passei a conviver, e aí percebi tudo o que eu poderia ter sido e estar sendo. A partir disso começo a traçar um viés pela arte, pela experimentação do corpo através da dança, do teatro, e algo que tem a mesma importância que é a experimentação do corpo através da montação, através da possibilidade de brincar com a minha estética e de experimentar ser a minha estética radicalmente. Faço da minha estética ou tento fazer um experimento político radical, por que a partir do momento que percebi de forma muito menos lógica e racional, quando comecei a me montar, mas quando percebi que a forma que eu me vestia alterava a forma como as pessoas me tratavam, a forma como os afetos me eram disponibilizados e a disponibilidade de outras pessoas diante de mim, passei a mergulhar cada vez mais.

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O livro da Jaqueline Gomes de Jesus (psicóloga doutora deu um depoimento brilhante que será publicado em outro texto) me chamou atenção que fala que a gente “só é pessoa por causa de outras pessoas”. É interessante pensar sobre isso porque é justamente a relação, algo muito importante pra mim, e a relação para mim é esse lugar de eu relo em você, você rela em mim, é a forma como a gente se rela, a forma como a gente se toca, e como se atravessa, se atraveca também.

Eu passei a experimentar e mergulhar mais sobre mim e perceber todas aquelas que eu ainda poderia ser. Daí foi mergulhando através da arte e descobrir na arte essa potência que para mim é o mais interessante. Não tem a ver com estar no palco, estar nas lentes da mídia, para mim ser artista tem a ver com criar sobre si mesma, com a possibilidade de inventar suas próprias trajetórias, inventar outras de si e perceber quais são os reais efeitos de ser quem você é.

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Acho que é isso o que tenho aprendido e o que tenho experimentado, experimentar os efeitos de quem sou, de quem estou sendo. E mesmo dentro do teatro e da dança percebi um lugar misógino que ocupa grande parte de toda a nossa história, que é essa aversão ao feminino e o nosso culto ao homem, ao falo, ao pau, ao macho, onde todas nós rastejamos de alguma forma atrás da grande pica gotejante. E mesmo dentro do teatro pude perceber que ali também meu corpo tinha que desempenhar um certo papel, eles esperavam algo de mim.

Acho que teve um momento em especial que uma amiga disse algo que mudou minha vida, uma amiga que também se montava comigo e ela estava se descobrindo travesti. Eu já estava morando em SP, morávamos no interior antes e ela dizia da dificuldade que encontrou em pessoas próximas, grupos de amigos que diziam que era “tão bonito menino por que tinha que virar mulher” “porque não podia só se montar de vez em quando”?

Então ela me disse o que mudou a minha forma de pensar e ver meu próprio corpo, você sabe o que é se olhar no espelho todos os dias e ter a certeza de que aquilo que está sendo refletido não é você? A partir daquele dia passei a olhar o espelho com outros olhos e outro corpo. Passei realmente a ver meu corpo como campo de possibilidade e passei a experimentar isso não só dentro de uma sala de ensaio ou de um espaço seguro mesmo que inseguro e passei a experimentar de forma integral.

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Passei a experimentar o que muitos poderiam dizer de um olhar artístico como performance mas o que eu posso dizer é que se borra entre vida e arte, o que se borra neste lugar de possibilidade de criar sobre si mesma. Eu passei a ir para a rua, eu passei a enfrentar e a ir em frente, nesse enfrentamento eu pude perceber melhor as relações e pude perceber o lugar que as pessoas esperavam que eu ocupasse por ser aquilo que eu estava sendo.

Sempre gostei de borrar esses limites e construir outras imagens, percebo que é questão de imaginário social, de construção de linguagem, de dar nome. Essa linguagem de resistência das pessoas trans, das  travestis e do meio LGB usam e constroem linguagem e isso é lindo. Somos nós a darmos sentido as coisas, darmos sentido as partes do meu corpo.

Ter a possibilidade de errar, a possibilidade do erro, de não ter certezas, a eminência de não ter a obrigação de cumprir determinadas normas foi essencial nesse meu processo também. A partir disso acho que busquei diálogo, troca, queria conversar, encontrar outras pessoas como eu, queria me sentir menos sozinha, queria me encontrar com outras solidões. Passei a criar artisticamente em performance, vídeo, fotografia, isso mais do que o produto em si, aquilo que eu estava fazendo foram as parcerias, as pessoas que estavam dispostas a produzir junto comigo, todas as parcerias que fui encontrando neste caminho, experimentei na performance. E era preciso encontrar pessoas que estivessem dispostas e acreditassem no que eu estava dizendo, e a inventar verdades também, isso de dar sentido e construção de linguagem, de inventarmos nossas próprias verdades, deixar de comprar verdades prontas e produzir as nossas próprias verdades.

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A música foi um ponto deste processo e ela é só mais um ponto neste processo, mas foi nesse ponto que consegui materializar de uma forma que pudesse ter alcance. Este lugar de construção de linguagem mesmo, de palavra, de falar, e com a música eu tenho sentido isso de alcance, de conseguir conversar e dialogar com outras pessoas que não necessariamente são próximas a mim.

Com a música parece que consegui fazer algo além do meu corpo, por que a música continua tocando sem que eu esteja necessariamente presente. Percebi que existem muitas outras como eu, e eu só estava falando de mim, e existem tantas outras, e que estava sendo egoísta de falar de mim, dos meus afetos, sentimentos, relações e mais que isso percebi como inventar meus afetos, meus desejos, justamente por estar insatisfeita com a forma repetida e caduca com a qual transavam comigo, por transarem comigo como transariam com você, ou com ele, ou com ele, e com ele e dessa forma repetida sentia que não estavam transando comigo, que não estavam relacionando comigo, não estavam relando em mim de fato, então precisava inventar minhas formas de desejo, de me relacionar, e fiz isso através da minha musica, como brincadeira mesmo.

É esse lugar que eu estou ocupando hoje com a minha música e com o meu corpo e que estou tensionando em mim e estou descobrindo esses outros espaços, abrindo espaços, e por vir deste universo periférico, preto e sem dinheiro a gente tem que fazer tudo isso na garra e as parcerias são mais importantes ainda.

“Enviadescer” foi o primeiro clipe que eu fiz para expandir um pouco mais o diálogo e contava com pessoas que estavam próximas a mim.

Esta formação de rede, de conexão, de apoio, psicológico, emocional, sexual, financeiro, material, que eu fui aprendendo a fazer, a conectar, a me conectar com essas pessoas.

Quando eu decidi fazer o clipe de “Talento” por exemplo que é uma parte muito especial do meu trampo foi quando me aproximei também de outras travestis em SP que estavam em situação de rua, em situação de muito mais vulnerabilidade. Vivi um processo de oficinas, de encontros e de vivências com essas travestis, foram 8 encontros em 2 meses, onde fizemos vivências de construção de figurino, de música, teatro, passarela, vídeo, onde a gente brincava e onde fui ganhando sentidos dentro da minha própria música.

Foi onde pude perceber que quando falava de Talento estava falando de resistência, do talento de resistir, maioria dos talentos que estas travestis exercem que é de existir, de lutar para existir, de tensionar as coisas para tornar possível a sua existência.

Esse lugar que eu to ocupando e que eu tenho descoberto outras solidões e me sentido menos sozinha e percebido tantas outras como eu e de como somos fortes e de como somos juntas. É especial e importante construir espaços de encontro como esse e que não sejam pontuais, que não sejam um olhar exótico sobre nós e que não queiram só olhar para mim, um olhar que objetifica, um olhar obsceno, um olhar enfim que acho que é justamente o oposto que quero construir. Eu não quero ser uma diva, esse espaço não me interessa, eu não sou estrela de ninguém, nem quero ocupar esse espaço, quero um espaço de diálogo e troca, juntas. É um risco da representatividade, é o risco do conforto, porque é mais confortável saber que já tem alguém ali na frente falando por nós, é muito mais interessante pensar em participatividade, em destruir palcos, em destruir espaços de estrela e passar a construir mais juntas.”

Mc Linn da Quebrada (SP) – Bicha, trans, preta e periférica. Nem ator, nem atriz, atroz. Bailarinx, performer e terrorista de gênero. Essas são algumas das referências da MC Linn da Quebrada que, agora, também usa a música – especificamente o gênero funk – como uma ferramenta de transformação social e uma poderosa arma na luta pela quebra de paradigmas sexuais, de gênero e corpo.

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