Fizemos o caminho a pé do centro até o Cine Belas Artes, na rua da Consolação, em São Paulo. O vento começava a correr forte, talvez como presságio de que a noite mudaria após vermos o documentário de Marina Abramovic, no qual mostra suas experiências em rituais pelo Brasil. “The space in between” ou Espaço Além – Marina Abramovic e o Brasil no título em português, é um filme chocante. Em 1 hora e 26 minutos de filme, me peguei vidrada na tela, absorvida pelas experiências radicais e sensíveis que a artista de performance se submete.

Marina Abramovic "The space in between"
Marina Abramovic “The space in between”

De cara, Marina já nos leva para as cirurgias espirituais realizadas por João de Deus. Com uma pequena faca, que em nada se assemelha com um bisturi, ele retira parte do tecido dos olhos de um homem. E a cena faz o cinema se contorcer. Eu me seguro na cadeira. A agonia é terrível. Mas, como só um “milagre” explicaria, a cirurgia se encerra e o olho ainda está lá, exceto que vermelho como sangue. Eles dizem que para a cirurgia funcionar é preciso ter fé.

A peregrinação pelo Brasil continua e Marina participa de vários rituais. E quando fala dos rituais, ela diz que isto transforma quem faz. E fala da linha entre o ritual e a performance. É fascinante perceber que a sua entrega à arte é total, no sentido de vivenciar todas suas expressões. Marina experimenta rituais radicais, submete seu corpo a experiência como um todo. É parte de uma narrativa própria que a faz mergulhar nesta tênue linha que separa a arte de um ritual místico, religioso.

marina abra

Marina percorre pelos rituais do Vale do Amanhecer, o xamanismo na Chapada Diamantina, o canbomblé na Bahia e os cristais de Minas Gerais. Em Chapada Diamantina, no Riachinho de Zezito Duarte, ela experimenta chá de ayahusca e resolve tomar duas doses por não sentir o efeito da bebida na primeira vez.

Então, Marina começa a sentir fortemente os efeitos do chá e as cenas do seu corpo se contorcendo no chão mesclam com o fogo que arde na fogueira e crepita suas chamas em fumaça para o céu. A experiência é tão radical que Marina conta que “vomitou, mijou e se cagou” ao mesmo tempo.

marina abramovic

Em Curitiba, com a fitoterapeuta Rudá Iandê e com a xamã Denise Maia, recebeu um banho de ervas e depois um ovo passava por todo seu corpo para retirar a energia ruim. Mas, era preciso que Marina quebrasse o ovo com suas próprias mãos para poder se libertar daquela carga negativa.

Ela aperta o ovo de todos os jeitos, entre as duas mãos, com uma força que é quase possível captar, entre urros de dor. Mas, o ovo não quebra. O ritual é realizado novamente. E só aí em um misto de alívio e dor, entre risos e lágrimas, Marina consegue quebrar o ovo.

marina caverna

É um filme intenso e provocador. E mostra pessoas comprometidas com suas crenças, seus rituais, suas expressões em como dialogar com o misticismo que rodeia a humanidade. A busca de Marina por unir essa espiritualidade, esse sentir oculto com a arte. Acredito que depois de todas estas experiências, ela segue cada vez mais fundo na caverna, tateando paredes escuras, sem saber o que encontrar. Mas sempre em busca do autoconhecimento pela sua entrega à arte.

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Marianna Marimon, 30, escritora antes de ser jornalista, arrisco palavras, poemas, sentidos, busco histórias que não me pertencem para escrever aquilo que me toca, sem acreditar em deuses, persigo a utopia de amar acima de todas as dores. Formada em jornalismo (UFMT) e pós-graduação em Mídia, Informação e Cultura (USP).

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