Por Paulo de Tarso*

Sempre gostei do posicionamento e ideais de Bob Marley, sua alma logo captou a chamada sonora universal para a sua missão na Terra. Li e ouvi que sua posição era por questões sociopolíticas que sangravam a sua terra natal (Jamaica).

Com toda a certeza acredito que Bob jamais pensou em ser considerado “a voz do povo negro  e oprimido da Jamaica“, mas pensou que podia fazer algo por qualquer raça e tipo de opressão.

Os seres vêm a terra com um propósito e aqui logo descobrem o que devem fazer. Bob Marley esteve no lugar e no tempo certo.

Porque falar e escrever isso sobre nosso eterno Bob Marley? Explico: Ontem à noite sonhei que estava em um pequeno bar em Kingston, e para a minha surpresa chegou nada mais nada menos do que o nosso guerreiro.

Fiquei surpreso e confesso que me passou a ideia de falar com o jamaicano, que agregou poemas, ou melhor, hinos de liberdade à sua música.

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Cheio de coragem me dirigi ao Sr. Marley e falei de minha admiração por seus posicionamentos, assim como por sua obra. Com imensa camaradagem, Bob me mandou sentar e começamos o que parecia impossível: uma conversa / entrevista.

– Bob, sou brasileiro, e como você jamaicano, meu povo é ligado em música, ritmo e principalmente  em mostrar infinita gratidão à cultura africana. Por isso, gostamos tanto de sua música e seu posicionamento.  Bob me olhava, e em seguida falou: Nada de entrevista, vamos conversar como novos velhos amigos.

Emoção na mesa, e lá fomos conhecer pelo  próprio sua trajetória em pensamentos e acordes.

Bob, como foi sua infância?

– Nasci no dia 6 de fevereiro de 1945, em um local muito pobre que se chama Nine Mille, Aqui mesmo em Kingston na Jamaica. Era uma comunidade rural e estava instalada no terreno montanhoso da paróquia de Saint Anna Parish.  Os moradores dessa comunidade mantinham muitos costumes africanos, principalmente a arte de contar histórias, que era uma forma de compartilhar as tradições ancestrais.

Sou filho de Cedella Malcon, e um inglês capitão do exército chamado Norval Sinclair Marley, que aliás casou e fugiu um dia depois  do meu nascimento. E jamais me referi a ele como pai até saber de sua morte em 1955. Em suma, Paulo, embora com dificuldades eu e minha mãe tivemos bons momentos juntos na minha infância e juventude.

Como a música entra em sua vida?

– Em 1950, minha mãe planejava mudar de vida. Então deixou Saint Ann e me trouxe para cá. Aqui em Kingston se uniu a Taddeus  Livingston e formamos uma nova família. Como sempre tive Ray Charles como ídolo, sempre que podia ia ouvir R&B nos rádios que tinham em minha pequena vila que se chamava Trenchtown. Junto com meus grandes amigos, Bunny Wailer e Neville Livingston, começamos a tocar e nos interessar por música.

Como era o ambiente musical  na Jamaica nesta época?

– Bunny e Neville e eu inventávamos guitarras feitas de lata e tocávamos canções americanas que ouvíamos nas rádios, o grande destaque era para o R&B (Rhythm & Blues). Nossos grandes  ídolos eram Ray Charles, Fast Domino, Brook Benton, e The Drifters. Me lembro que também havia os Sounds Systems, um tipo de van super equipada com aparelhos de som que animava a galera das ruas tocando os últimos sucessos dos EUA, Europa e também de sua terra, lembro como se fosse hoje de ouvir o que vocês chamavam de Bossa Nova.

bobSoube que sua mãe quase não deixa você ser músico. Como foi isso ?

– Apesar de muito pobre, de várias atividades sem nenhum futuro e de muitos moradores do gueto, a cidade era culturalmente rica, o que ajudou a despertar meu interesse pela música. Trenchtown foi uma eterna inspiração para mim eu agradeço homenageando minha gente nas canções “No woman no Cry” e em “Trenchtown Rock”. Mas, voltando a pergunta, minha mãe ainda estava indecisa em relação a eu seguir a carreira musical, pois o ambiente e as influências do chamado som da favela, justiça seja feita, não eram animadoras. Aí fui trabalhar como aprendiz de soldador, cara hesitei, pensei pra cacete, mas aceitei, como lembrança uma pequena lasca de aço me atingiu o olho. Esse acidente foi fundamental, pois logo em seguida “abri o olho“ e saí  para me dedicar a minha sonhada carreira musical.

Tinha 16 anos quando conheci Desmond Dekker, cantor que me apresentou  a Jimmy Cliff, que muito cedo já havia conquistado fama com algumas canções jamaicanas (Ska) inclusive a trilha sonora do filme jamaicano “The harder they Come” que com certeza popularizou o Reggae nos Estados Unidos.

Jimmy Cliff, gostou muito de meu jeito e me apresentou ao produtor Leslie Kong  que bancou a gravação de meus primeiros singles “Judge Not, Terror e One More Cup of Coffee“ – que aliás foi um grande fracasso pois ninguém tocou e meus ganhos não passaram de U$ 20 dólares conforme o agente Babylon System, um renomado cafetão de artistas.

Bob-Marley-MusicalComo você conheceu o grande Peter Tosh?

– Nós começamos a ter aulas de canto orientadas por José Higgs que morava em Trench. Ele era um cara de sucesso e foi mentor de muitos cantores. Foi em um dia de chuva que ele nos apresentou a Peter Macintosh (Peter Tosh). Ai nossa vida muda, e começa a minha vida musical. Ficamos bons amigos e naturalmente resolvemos formar um grupo  vocal. O primeiro nome foi motivo de grandes  discussões e chegamos a conclusão que “The Wailing Rudeboys”  era legal mas muito agressivo pois era referência a gangues de delinquentes, então, mudamos para “The Wailing Wailer”,  isso devido a nossa condição de favelado. Para completar o nosso grupo vieram: Junior Braithwaite, Beverly Kelso, e Cherry Smith  que demorou pouco, pois como entraram saíram, depois de sessões conturbadas de gravações.

Percebo que Bob Marley está muito à vontade e nossa conversa volta a fluir com animação.

Entao, houve outra formação para os Wailers?

– Sim, pois fomos apresentados a uma gravadora jamaicana  que se chamava “Studio One“, que de cara se interessou por nosso trabalho, pois tinha compromisso como nós com a luta pelos pobres da Jamaica. Logo os Wailers arrebanharam um número muito grande de fãs, e nosso primeiro trabalho “Simmer Down“, que foi uma letra que fiz para os jovens do gueto acalmarem seus sentimentos exaltados. Cara, o disco vendeu cerca de 60 mil cópias e  fomos chamados a realizar outros trabalhos.

Vários sucessos vieram incluindo  “Rude Boy e “I’m Still Waiting”, que considero a primeira versão de One Love que depois a BBC coloca como a canção do século .

Como foi a mudança de andamento do Ska para o Reggae?

– Já no final dos anos 60, o animado ritmo do Ska passava de um som chamado Rocksteady, para um som que virou marca registrada da Jamaica, o Reggae, que imediatamente adotou letras cheias de  crenças rastafári que a meu ver se tornou essenciais ao seu desenvolvimento. Nem todos acharam bom e  nosso sucesso ficou pelo caminho, pois abandonamos o Studio One. Minha mãe nesse meio tempo, casou-se novamente e mudou-se para Delaware (USA). Neste momento também me casei com Rita Anderson e todos nós fomos morar neste estado americano. Lá, trabalhei como assistente de Laboratório na DuPont  e logo após fui parar na linha de montagem da Chryler.

Bob dá uma grande risada e conclui: Lá eu tinha um pseudônimo: Donald Marley. 

bmarlyComo foi adotar o modo de vida Rastafári?

– Quando estava fora da Jamaica, o Imperador Haillé Salassie fez uma visita à Ilha se não me falha a memória por volta de 1966. O cara era venerado como um Deus, um verdadeiro salvador, sua visita causou um impacto muito grande em Rita e muito maior em mim. Tanto que logo em seguida comecei a viver o modo e os costumes rastafári.

Como foi sua volta à Jamaica?

– Nós voltamos  e fundamos nossa própria  gravadora a Wail’N Soul‘M  em frente a casa da tia Bob. Começamos a fazer música em cima da filosofia rastafári. A gravadora lançou alguns sucessos dos Wailers como Bend Down Low e Mellow Mood, mas devido a falta de recursos, os Wailers acabaram fechando a gravadora em 1968.

Como veio o sucesso para sua banda?

– A Jamaica no início dos anos 70 estava em uma crise danada, desemprego, racionamento de comida, violência política e muitas outras coisas. Só serviu mesmo para colocarmos nossas ideias e talento a serviço da música. Era hora de clamar pela consciência social.

Fizemos uma parceria com o produtor jamaicano Lee Perry, um pioneiro no desenvolvimento do reggae que pôs baixo e bateria em primeiro plano mudando totalmente a levada das músicas. Perry juntou os Wailers com as principais bandas do país e assim foi se formando a identidade sônica revolucionária, aliada ao requinte técnico. Essa evolução você pode sentir no álbum “Soul Rebels “ de 1970, aliás, você conhece esse álbum?

Respondi com pressa e orgulho: Claro! pois esse foi o primeiro disco da banda que foi lançado no Reino Unido, e gerou uma grande discussão, e até o rompimento com Perry  que foi acusado de receber os direitos autorais sem dividir com o grupo.

Recebo um ok de Marley e depois dessa vitória abro espaço para uma conversa paralela de Bob com alguns amigos e mais rápido que eu imaginava sou questionado pelo astro.

117455– Lembro-me que quando fui ao Brasil joguei uma pelada animada com meus grandes amigos Chico Buarque, Milton Nascimento, Toquinho, Moraes Moreira… Será que esqueci alguém? Lembro-me bem: fomos participar de uma festa da gravadora Ariola e ficamos hospedados no hotel em frente ao mar em Copacabana. Mas, o grande momento foi quando conheci meu ídolo Paulo César Caju. Recebi uma camisa 10 do Santos F.C. e fiquei tão feliz de ter a camisa do Rei Pelé que quase chorei de emoção. Depois soube que meu considerado Gilberto Gil gravou  “Não chores mais“ e vendeu por volta de 500 mil cópias. Vocês brasileiros são demais. Você sabe Paulo (olha só a intimidade!!) que no avião de volta eu criei a canção “Could You be Loved” pensando na cultura do Brasil?

Aproveito, e faço ao Rei do Reggae nosso modesto agradecimento. Digo: Bob existem muitas pessoas interessadas em fazer cultura no Brasil, alias, recomendo o Site Cidadão Cultura, hoje, uma referência  em termos culturais em meu país. (Dou mais informações, e com a gentileza que lhe é peculiar, Bob Marley manda fraterno abraço a Eduardo, Marianna e Carol e demais colaboradores desejando imenso sucesso a essa gente de valor).

maxresdefaultComo você responde aos ataques de que defendia a maconha e portanto era uma influência maléfica para jovens no mundo inteiro?

Meu ponto de vista é o seguinte: A maconha divide opiniões – será que é maléfico à saúde física? Creio ter um ponto de vista mais espiritual. Para mim, fumar maconha não é um hábito recreativo e sempre defendi a força meditativa, o poder curativo e a capacidade de comunhão espiritual da “ganja“ (nome da erva na Jamaica). Porém, me oponho com muita lucidez ao uso da erva por forças políticas que fazem da ganja um veiculo de opressão para manter grupo de pessoas simples fora da sociedade.

Como é ser um ídolo, e qual sua função?

– Depois de alcançar o sucesso vi que a importância de um ídolo é muito maior em relação a sua espiritualidade defendendo a liberdade, paz, igualdade social, amor universal  em sua obra.

Qual o Legado de Bob Marley?

– Creio que atingi vários nichos de ouvintes, independente de raça, cor e credo. Sempre fui em frente e procurei mostrar minha arte desafiando o colonialismo e todo tipo de “ismo“  espero ter sido ouvido e compreendido em vários lugares carentes de igualdade social. Em especial a África que semeou a raça humana e só tem colhido injustiças.

Tudo ia muito bem, até um despertador me chamar para a realidade. A hora de trabalhar!  Porra!!!!  Nem me despedi dessa figura incrível. Pena que sonhos acabem de uma hora para outra, ainda assim consegui umas últimas palavras de Bob naquele bar em Kingston:

“Paulo, às vezes construímos sonhos em cima de grandes pessoas… o tempo passa e  descobrimos que grandes mesmo eram os sonhos e as pessoas pequenas demais para torná-los reais!”

Robert Nesta Marley – morreu em 11 de Maio de 1981

*Paulo de Tarso é fanático por futebol, fica puto quando o Palmeiras vai mal, é paulistano, louco por música e vive escrafunchando a história por aí. Jornalista e radialista. 

 

 

 

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