Por Reinaldo Marchesi*

“Não entenderam a poética do homem com o regador sentado num elefante branco, só ficou o elefante (sem expressão). Mas dizem que beleza é subjetiva. Aí pensei, ou vão contratar um artista mais conceituado pra pintar as belezas do Pantanal ou então a obra que dizem que é uma pista de skate já está encerrada, pois a pintura seria a última fase, não é.” (Sálvio Júnior – Artista Plástico)

Imagens: Reinaldo Marchesi
Imagens: Reinaldo Marchesi

O povo muito curioso, queria saber o que tudo aquilo significava. Um homem de cor vermelho-terra chamava nossa atenção. Nas paredes de uma quase-pista de skate, no meio de uma suposta praça. O jardineiro trabalhava entre as duas palavras de um anônimo. Todos que por ali passavam não ficavam indiferentes a sua expressão. Havia algo novo ali no meio daquele espaço vazio. O jardineiro solitário fazia um manifesto de vida aos jardins sem flores. Mas, da noite para o dia, ele sumiu, desapareceu.

Pelas mãos de um malfeitor, o jardineiro e seu elefantinho branco foram friamente apagados. Seus algozes, para não deixar pistas, com a mesma tinta que pintavam o meio-fio de uma calçada, passaram-lhe uma faixa branca de cal. Apagaram o único homem que molhava as plantas de um vasto canteiro de obras inacabadas. No lugar estéril, ele estava como nossa única esperança de beleza. Tudo aquilo para mim formava uma imagem de esperança no ser humano. Em sua curta existência, ele nos deixou sua bela mensagem: regador e água, lembram vida.

Apagada, queimada ou proibida, a mensagem artística resiste no tempo e no espaço, da pintura rupestre aos murais coloridos dos dias atuais. Até o homem chamado primitivo já sabia: paredes, são mais do que paredes, mesmo que sejam de cavernas. Na Grécia antiga, ao provocar os cidadãos, a arte cumpria a expressão de si e da política. Em regimes totalitários, incontáveis obras artísticas foram veneradas ou destruídas pelos poderosos. Basta lembrarmos que pinturas incomodaram ditadores como Adolf Hitler, que mandou queimar milhares de telas que considerava “arte degenerada”. De diferentes formas, a destruição de obras artísticas não foi uma desgraça só da Alemanha nazista. A censura e falta de respeito para com a arte e os artistas ocorrem em todos os tempos e espaços.

Foto: Reinaldo Marchesi
Sálvio Junior em frente aos murais que pintou na praça Cavalhada em Cáceres Foto: Reinaldo Marchesi

Nos dias de hoje, alheios à informação, muitas pessoas consideram a expressão da arte de rua como ato de vandalismo, depredação do patrimônio. Na cidade de Bistrol, Inglaterra, uma empresa contratada para pintar os muros inadvertidamente apagou um mural de 7 metros criado por Banksy, o artista antissistema. Em São Paulo, na gestão do ex-prefeito, Gilberto Kassab, pintaram de bege os famosos grafites dos irmãos gêmeos Gustavo e Otávio Pandolfo, que já fizeram inúmeros murais no exterior, como em Atenas, Grécia. No Rio de Janeiro, a prefeitura decidiu pintar de cinza as famosas inscrições do Profeta Gentileza. Os protestos foram tantos que as inscrições foram restauradas e hoje fazem parte do patrimônio artístico nacional: citado em livros, filmes e novelas, a mensagem de Gentileza foi cantada por músicos como Gonzaguinha e Marisa Monte. Na cidade de Cuiabá, artistas desenharam um belo grafite colorido em uma dessas obras cinzentas da Copa do Mundo. Ironicamente, foram presos e multados por danos ao patrimônio público.

Quando o patrimônio está abandonado, sujo ou inacabado, ninguém reclama, mas quando vem alguém e resolve fazer um grafite, ou algum outro tipo de pintura, os agentes do estado resolvem usar tinta para “limpar”. A substituição da arte pela cobertura monocromática nos permite infinitos debates acerca daquilo que querem nos mostrar, ou esconder. Pintar ou apagar um grafite, são em si, partes de uma mesma provocação.

Pintura de Sálvio Junior - Foto :Reinaldo Marchesi
Pintura de Sálvio Junior – Foto Reinaldo Marchesi

No contexto da denúncia de tantos crimes contra o patrimônio público, dessa vez no município de Cáceres, resta saber: qual foi o crime? quem o praticou? Os mais ignorantes denunciavam a relação política das cores da obra: “homem vermelho é coisa de comunista”. Alguns comentaram: “O jardineiro estava estranho no meio daquela pichação, talvez por isso merecesse ser apagado”. Os mais legalistas ruminavam: “a pintura precisava de autorização”.  Nesse sentido, para eles, o crime é a arte e criminoso é o artista. Do crime de pintar, Sálvio Júnior tem diversos pela cidade. Tem crimes do artista até no exterior. Então, se a arte tornou-se crime de depredação do patrimônio público, Cáceres precisa ser depredada e vandalizada por mais artistas.

O jardineiro vermelho e seu regador são uma metáfora. Uma metáfora artística. A metáfora necessária para uma cidade que precisa de mais cuidados com o patrimônio coletivo. Obras públicas mal-acabadas, incompletas e mal feitas, são os verdadeiros crimes contra o patrimônio público. Elefantes brancos da corrupção. Chegará o dia que muitos saberão: um elefante incomoda muita gente… e, se for branco… incomoda muito mais.

*Reinaldo Marchesi é mestre em Educação

5 Comentários

  1. Muito bom o texto,porem, Se ele Pintou por cima da “ARTE” que ja estava escrito la, de “FORA DILMA”, deu asa para outro vir e pintar em cima, e assim não seria crime de nenhuma das partes, pois a arte dele como a de ninguem esta a cima de lei nenhuma, para que jugar um proximo, não sou de politica, muito pelo Contrario, Mais pela Estética visual de uma cidade que grita por comercio turístico, algo como esta “ARTE” não vem a engrandecer em nada para Cáceres. Decisão Correta por parte de quem Visa Melhorar um dos meios de Arrecadação e Tradição de Cáceres, o FIPE.

    • Não a subterfúgios, você apenas não compreende a arte, não foi POR QUE o Fipe estava chegando, e sim PORQUE o Fipe estava chegando! Arte não é pra ser beleza estética, nome disso é maquiagem. DA arte só sobrou a cor de mais um elefante branco.

  2. Parabéns Sávio pelo presente da arte e Reinaldo por nos dá-la a conhecer e ajudando-nos a ler. Lembrem que ao serem retirados parte dos tapumes que cercavam a praça Barão há muito tempo tivemos mais uma surpresa em relação ao patrimônio histórico agredido pela pintura da base do monumento mais importante da cidade, nada menos do que Marco do Jauru. Seu texto falava de crimes cotidianos que acontecem contra os bens públicos e o patrimônio da coletividade e que a cada um deles continuamos perguntando: quem foi desta vez? Todos sabem, todos viram, mas como reparar? A lei prevê penas de prisão e multa para aquele que depreda ou desfigurar um monumento histórico e seu entrono. As cores que pintaram na praça amarelo e azul por acaso seriam uma homenagem ao tucano? Poucos meses atrás o prédio da ex-prefeitura e ex-câmara foi agredida e quase destruída pelo fogo, hoje as ruínas estão sendo mais violentadas pelos pedreiros contratados para preencher as aberturas de portas e janelas como se paredes fossem. Nossa responsabilidade primeira neste caso é vigiar e zelar pelo patrimônio artístico, cultural, histórico público e denunciar. Mas isto não basta para mudar a situação. Temos necessidade de um forte e organizado movimento social e cultural em defesa do patrimônio já existente e de um esforço criativo para melhorar o visual da cidade. Não podemos isentar de responsabilidade os órgãos públicos que em casos se omitem e noutros casos são os próprios infratores. Necessita-se de um verdadeiro mutirão que inicie pelo debate, encaminhe um amplo plano de ação e defina responsabilidades e parcerias como também mobilize e destine recursos para sua execução.

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