Mesmo com quarenta anos de ofício, Mariangela Alves de Lima assim considerou sobre escrever: “Algumas pessoas dizem que fica mais fácil com o tempo, mas para mim, o momento da escrita é igualmente tenso.”

De 1971 a 2011 escreveu críticas de teatro para o Jornal Estado de São Paulo e compartilhou esta experiência durante a abertura do ciclo de debates “Crítica em movimento” realizado no Itaú Cultural, de 6 a 10 de setembro.

Herdeira de uma tradição de crítica de teatro, Mariangela citou nomes como Sábato Magaldi e Décio de Almeida Prado, que a antecederam. “Existia um modelo, só era preciso que eu me encaixasse nele”.

Com o intuito de debater a crítica sobre artes cênicas no Brasil, o encontro promoveu reflexões, questionamentos e inquietações. Se antes o espaço reservado à crítica estava nas páginas oficiais dos jornais impressos, hoje ela migra para o oceano de possibilidades que é a Internet. Esta mudança de meio também muda a sua forma, seu conteúdo, e quem a produz.

Mariângela classificou como uma trindade – teatro, público, crítica – e que se as páginas dos jornais não mais acomodam a crítica, ela encontrará sua ressonância em outro espaço. “As coisas vão continuar acontecendo. As empresas jornalísticas não acompanham e vai continuar de um outro jeito, como nos blogs, tem muita coisa interessante”.

Desde que se despediu das páginas do jornal em 2011, ela não voltou a escrever, mas discorreu sobre como exercia a crítica: “Abrir a experiência de arte para outras pessoas e não se fechar no sentido de avaliação, com essas outras visões o espetáculo continua vivendo. Criar, recriar, se apropriar, não deixar aquele momento morrer. É um trânsito entre a obra e o espectador, mas o texto é muito mais modesto que a obra de arte”.

A conversa com Mariangela foi mediada pelo curador do ciclo de debates, o pesquisador, jornalista e editor do site Teatrojornal, Walmir Santos.

Com o tema “Problemas do Trabalho e da Arte da Crítica”, o segundo dia do ciclo de debates trouxe o editor da revista Cult Wellington Andrade e professor de jornalismo da Casper Líbero e o dramaturgo e docente da Escola Superior de Música e Artes do Espetáculo (Porto) Jorge Louraço Figueira, com mediação do diretor da Escola de Arte Dramática da Universidade de São Paulo (USP), doutor em filosofia José Fernando de Azevedo.

Sobre a mudança nos meios de publicação, Jorge Louraço avaliou a crise na imprensa e como as críticas se tornaram mais ligeiras e superficiais ao migrarem para outra plataforma (Internet).  “Logo irão criar um aplicativo da crítica, tipo um Tinder, que você desliza para direita/esquerda para definir se gostou ou não. Essa instantaneidade do Facebook nos prende, aprisiona, no olho que tudo controla, o algoritmo”.

Com relação ao desmanche do jornalismo cultural, Wellington Andrade destacou que é um negócio promocional, com poucos pontos de ruptura, como uma celebração do realismo capitalista. Também citou o texto “Sem reflexão crítica sobre a cultura, nunca será possível fugir da alienação” de Vladimir Safatle que trata da função social da crítica cultural. Este trecho traduz a necessidade de se debater criticamente a produção cultural brasileira:

“Bem, se quisermos entender uma das raízes da miséria de nossa imaginação política atual recomendo voltar os olhos para o fim da crítica cultural. Pois sem reflexão crítica sobre a cultura nunca foi nem será possível quebrar o círculo de anestesia que perpetua a alienação social.” 

Essa transformação social provocada e motivada pela reflexão crítica da cultura perdeu terreno nos jornais. A crítica migrou para a Internet em projetos alternativos e/ou independentes de comunicação e cultura, mas ainda assim parece ficar circunscrita às bolhas ideológicas virtuais. O que restringe o seu alcance e potencial. Com isso, temos a impressão de que consumimos o que o vasto cardápio da Internet nos oferece, sem perceber que sequer rompemos com este ciclo vicioso alimentado pela lógica perversa dos algoritmos.

José Fernando afirmou que se o teatro é arte pública é do tamanho da vida pública no país e que só existe na medida que esse confronto se dá. “Se o teatro não engata na radicalidade que acontece em todo o mundo, então é outra coisa. Existe uma mudança de campo social, o teatro não é mais um projeto da elite e a crítica deve corresponder a isso. Se não vislumbrarmos isso não damos o passo”.

O ciclo de debates também tocou na temática do circo e da dança, e no vão que existe dentro da crítica sobre artes cênicas, circunscrita pelo foco no teatro.

O último debate foi da mesa “Ações, iniciativas e transformações da prática da crítica” com Sheila Ribeiro, bailarina e pesquisadora que falou sobre o projeto 7×7, e a jornalista Polyanna Diniz do Documenta A Cena – plataforma de crítica formada pelos canais digitais Questão de Crítica (RJ), Horizonte da Cena (MG) e Satisfeita, Yolanda? (PE). A mediação foi realizada pela editora do Teatrojornal – Leituras de cena, jornalista, pesquisadora Beth Néspoli que também dividiu a experiência do site.

Beth fez um panorama de todo o diálogo suscitado durante o “Crítica em movimento”. Se na época de Mariangela Alves de Lima o espaço da crítica já existia, com um modelo formatado, bastando apenas se encaixar nele, como acontece hoje – se mergulhada em toda subjetividade que a Internet permite? Com muitos questionamentos em aberto, Beth destacou que a crítica deve ser feita seguindo alguns preceitos jornalísticos, como a clareza, rigor, apuração. “A crítica que abre sentidos e que dialoguem, mas sem criar espaços de poder como nos jornais”, disse.

Com a dura realidade de como se manter projetos culturais, esta última mesa revelou como estas iniciativas se dão na prática, as dificuldades, desafios, superações. O projeto 7×7 tomou outra forma, contou Sheila, mas começou em 2009, com críticas de artistas sobre trabalhos de outros artistas. A plataforma possibilitava a crítica em variadas formas e formatos: um vídeo, uma imagem, palavra, performance.

Vale também destacar iniciativas como o Parágrafo Cerrado que nasceu em Cuiabá após uma oficina da Beth pelo SESC e produz ressonância crítica para a produção das artes cênicas em Mato Grosso.

Como disse Beth Néspoli ao final, saímos com mais questionamentos, inquietações do que antes, mas com a certeza de que é preciso retomar, reforçar e amplificar o pensamento crítico no Brasil.

Principalmente em um momento em que vozes estão amplificadas porém diluídas neste bombardeio de informações que é a Internet, com disputas polarizadas em um discurso de ódio que prolifera nas redes sociais. O mundo vive uma onda fundamentalista, radical, uma guinada ao conservadorismo, à segregação e preconceitos. Sob o guarda-chuva formado pelos algoritmos, as fake news – fenômeno da pós-verdade, distanciam e sepultam qualquer possibilidade de diálogo com pensamentos diversos. Fechados em bolhas ideológicas não conseguimos enxergar o que está logo à frente. Cegos pelos algoritmos que restringem nossos cliques aos nossos interesses para aperfeiçoar dados, nos transformando em mercadorias digitais. E como é difícil articular um pensamento sequer neste bombardeio de informações.

É essa tensão relatada por Mariangela na hora de se escrever um texto. É esse momento de tensão, esse tensionamento que a arte deve provocar, esse incômodo que nos tira do nosso lugar confortável e nos faz questionar, criando revoluções.

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Marianna Marimon, 30, escritora antes de ser jornalista, arrisco palavras, poemas, sentidos, busco histórias que não me pertencem para escrever aquilo que me toca, sem acreditar em deuses, persigo a utopia de amar acima de todas as dores. Formada em jornalismo (UFMT) e pós-graduação em Mídia, Informação e Cultura (USP).

Comentário

  1. Que fortuito acompanhar um trechinho desse evento pelas letras da Marianna. Faço coro à crítica Beth Néspoli quando anseia o empenho pela (re)construção do pensamento crítico no Brasil. Fico feliz de ver o Parágrafo Cerrado citado como ferramenta que contribui para a reivindicação de um novo espaço para a crítica de arte em Mato Grosso.

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